Sexta-feira, Junho 04, 2004

FECHADO POR TEMPO INDETERMINADO


 



FECHADO POR TEMPO INDETERMINADO


 



FECHADO POR TEMPO INDETERMINADO


 


Quinta-feira, Maio 27, 2004

FECHADO POR TEMPO INDETERMINADO
FECHADO POR TEMPO INDETERMINADO
FECHADO POR TEMPO INDETERMINADO
FECHADO POR TEMPO INDETERMINADO
FECHADO POR TEMPO INDETERMINADO
FECHADO POR TEMPO INDETERMINADO
FECHADO POR TEMPO INDETERMINADO
FECHADO POR TEMPO INDETERMINADO
FECHADO POR TEMPO INDETERMINADO
FECHADO POR TEMPO INDETERMINADO
FECHADO POR TEMPO INDETERMINADO
FECHADO POR TEMPO INDETERMINADO
FECHADO POR TEMPO INDETERMINADO
FECHADO POR TEMPO INDETERMINADO
FECHADO POR TEMPO INDETERMINADO
FECHADO POR TEMPO INDETERMINADO



 


Sexta-feira, Maio 14, 2004

EU VI UMA ÁRVORE

Eu vi uma árvore maior que todas outras,
cheia de pinhas inacessíveis;
vi uma grande igreja de portas abertas
e todos os que dela saiam eram pálidos e fortes
e prontos para morrer;
vi uma mulher maquiada que sorria
e jogava dados a sua sorte
e vi que ela perdeu.
Havia um círculo desenhado ao redor
que ninguém ultrapassava.

Edith Södergran
Poemas - 1916






 


Quarta-feira, Abril 28, 2004

ALGUMAS VISÕES DA NOITE.
QUAL VOCÊ PREFERE ?


Resumo da noite

Há restos de álcool na minha lama, digo, na
[minha alma, e pássaros canoros.
Meus dedos cheiram a fumo e a manhã
[invade o quarto.
Em que esquina aquela puta, em que hotel
[aquela festa, de que cano perdeu-se a bala ?
faz carreira, a cara ao tapa, chuta, dá um
[pau na barraca
em branco e preto, sai de fininho, olha a parada
onde as garrafas secas, o som, mas a bala
[que entrou pelo cano ?
O quarto invade a manhã, dedos no meu fumo.
Há pássaros canoros, e restos da minha alma,
[digo, da minha lama, em todo álcool.

Walter Cavalcanti Magalhães Jr.



O que sentes ?
É o frio do século
é o frio do tempo que apunhala a pele
a Luz que somos.

Sentes o golpe cego do Deserto ?

Há piranhas no alento na rua cruel

Mas meu amor será como braseira contra o frio
Meus lábios como uma água contra o sal do Vento
Meu corpo como nuvem contra o sol do Deserto.

Luz plena : sombra intensa

Entre charcos e pedras
Somos o mesmo sonho
Sob a Lua Cheia.

Para desinfetar o céu :
Música Lunar.

Efraín Bartolomé


Destino de pASTICHE

como traduzir
"this lunar beauty
has no history,
is complete and early..."?

"Esta beleza lunar
não tem história,
é completa e nova..."
tem suas vantagens
mantém mais ou menos a métrica
a sílaba "le" ressoa com "lu"
etc.
com seu som forte e tônico
é verdade também que "história"
rima com "nova"

mas em "beauty" reverbera em "history"
e "early"
"early" com seu frescor
sugere uma estrela da manhã
o que não ocorre
com a palavra "lunar"
em relação à "história" e à "nova"

além disso
"is"ecoa em
"this history is"

o som quase grego
desta pequena estrofe
se perde em português
seu tom categórico
mas não seco
se dilui no arrastado de
"És tá bê lê zá lu nhar
Não tem his tó ti á
É côm plé te nó vá "

"This lunar beauty..."
poderia ser vertido
por
"Tal beleza lunar,
sem história,
é completa e agora"

economizaria uma palavra
gastaria outras
mas seria uma interpretação literária
forçada

é como se em português
"This lunar beauty..."
tivesse um destino de pastiche

se as palavras pudessem perder
o sentido
escreveria
somente :
"This lunar beauty
has no history,
is complete and early"

Régis Bonvicino


 


Sexta-feira, Abril 23, 2004

AS PROMESSAS DE UM ROSTO

Ainda estou imerso na leitura das Flores do Mal.
Me identifiquei muito com este poema.
Na verdade tenho me identificado com quase todos, já que entre os 20 e os 26 anos tive uma vida muito parecida com a que levou o poeta.
As orgias e chapações pesadas cessaram, porém as lembranças persistem em minha memória.
O meu conceito predileto para estes momentos é : Confusão será o meu epitáfio, dito sabiamente pelo King Crimson.


Eu te amo as sombrancelhas que ao curvar-se imitam
Da treva os véus e os movimentos;
Embora negros, os teus olhos me suscitam
Nem sempre turvos pensamentos.

Teus olhos, cujo tom às cores se combina
De tua ondelante crina elástica,
Teus olhos lânguidos me dizem em surdina:
"Se tens, cultor da musa plástica,

Confiança nessa fé que em ti tanto exaltamos,
E nos prazeres que anunciais,
Poderás comprovar de fato o que afirmamos
Do umbigo às nádegas macias.

Verás nos bicos destes seios que desnudo
Dois brônzeos medalhões febris,
E sob um ventre cuja tez lembra o veludo,
Ou do bistre negro matiz,

Um soberbo tosão que é o gêmeo, na verdade,
Dessa outra juba que fulgura,
Suave e frisada, e que te iguala em densidade,
Noite sem astros, noite escura! "

Charles Baudelaire - As promessas de um rosto - As flores do mal.



 


Segunda-feira, Abril 19, 2004

A DESTRUIÇÃO

Sem cessar a meu lado o Demônio se agita,
e nada ao meu redor como um ar impalpável;
Eu o levo aos meus pulmões, onde ele arde e crepita,
inflando-os de um desejo eterno e condenável.

Às vezes, ao saber do amor que a arte me inspira,
assume a forma da mulher que eu vejo em sonhos,
e, qual tartufo afeito às tramas da mentira,
acostuma-me a boca aos seus filtros medonhos.

Ele assim me conduz, alquebrante e ofegante,
já dos olhos de Deus afinal tão distante,
às planícies do tédio, infindas e desertas,

E lança-me ao olhar imerso em confusão
trajes imundos e feridas entreabertas
- o aparato sangrento e atroz da Destruição !

As flores do Mal - CIX - A DESTRUIÇÃO
Charles Baudelaire


 


Sexta-feira, Abril 16, 2004

PENSAMENTOS DA SEMANA

"A única vantagem de ser brasileiro, e falar português, é entender as letras do Chico Buarque. " Marco Prado - Meu professor de História da MPB.

"A vida só é dura prá quem é mole ! " João Domingos. Meu saudoso vovô.

"Quando um músico erudito vira prá mim e fala : "Não gosto de Rock ! " Eu até entendo. Agora, não gostar de King Crimsom, eu não entendo ! " Marco Prado.

"Se até o universo tem ruído de fundo, porque o meu CD não pode ter ?" wilton carvalho


 


Quinta-feira, Abril 15, 2004

Bêbado de Saudade

(Guttemberg Guarabyra)


Hoje, não existe mais o Brasil da primeira vez que entrei no Bar
Cervantes, em Copacabana. Eu tinha dezoito anos. Havia acabado de sair do
Teatro
Jovem, em Botafogo, onde fizera minha primeira audição pública, numa feira de
música popular. Paulinho da Viola me apresentou. Na feira, que acontecia todas
as sextas à meia-noite, um artista já consagrado apresentava os novatos. Na
minha noite o apresentador era Paulinho. Consultou uma ficha de papel e
anunciou:

- Temos aqui um compositor...

Examinou novamente a ficha. Pelo visto, não constava nenhuma informação
complementar. Chegou, então, bem próximo e perguntou:

- Você é compositor o quê...?

Claro que a resposta merecia cuidadosa reflexão. Porém, o público, em
silêncio, aguardava um esclarecimento. Nara Leão, na platéia, tinha os olhos
fixos em mim. Lembrei que as músicas falavam de sertão. Sapequei:

- Rural.

Murmúrios, alvoroço. Paulinho ajeitou o pedestal do microfone à minha
frente e, assim, fiz minha grande estréia já estigmatizado por mim mesmo de
"compositor rural". No fim choveram aplausos. Saí-me bem.

Daí fui incluído na seleta turma do Cervantes. Naquela ocasião, em que
fui admitido pela primeira vez, estavam presentes Nelson Lins e Barros -
musicólogo, letrista de Carlos Lyra e que seria um de meus maiores
incentivadores no futuro -, Chico Buarque, Caetano, Gil, o próprio Paulinho,
Sidney Miller, Capinam, Marieta Severo - que começava seu namoro com Chico - e
muitos outros. Todos em início de carreira. A estrela maior era Chico, que
havia
estourado com a Banda. Os outros aguardavam a vez. Caetano ainda era
pré-Alegria, Alegria; Capinam pré-Ponteio; Gil pré-Domingo no Parque. Cantaram
músicas belíssimas. Saí de lá atordoado, achando que jamais conseguiria fazer
coisas tão bonitas. E encantado com o prato que comera pela primeira vez:
filé à
milanesa com purê de batatas. Passou a ser meu preferido, a ponto de fazê-lo o
predileto, também, do personagem central de meu livro O Outro Lado do Mundo.

Porém, uma pessoa, a quem ainda não citei, impressionou-me profundamente
naquela noitada: o maestro Guerra Peixe. Parecia um sapo. O Bar ficava a cem
metros do edifício onde morava. Chegava direto dos concertos. Pendurava o
smoking no espaldar da cadeira, abria a camisa, dando liberdade à sua imensa
barriga, refastelava-se no assento. O garçom servia-lhe automaticamente um
chope
gelado, e o legendário maestro, crítico de Villa Lobos, autor de imensa e
magnífica obra, desconhecida ainda hoje, tornava-se um dos nossos. O único
veterano e venerável, entre todos.

Certa noite, já enturmado no grupo do Cervantes, fui convidado, com
grande mistério, por Nelson Lins e Barros, a participar de um encontro na casa
do maestro Guerra Peixe. Era uma reunião do Partido Comunista. Fiquei surpreso
ao saber que tanto Nelson quanto ele faziam parte de uma célula do Partidão da
qual participavam apenas musicistas. Subimos ao apartamento. O maestro
abriu-nos
a porta e me recebeu com um tapinha na cabeça. O amplo apartamento tinha uma
segunda sala onde se daria a discussão. Todos já haviam chegado: Ester
Scliar, a
grande professora e compositora dodecafonista; Geni Marcondes, a primeira
mulher
arranjadora de que tive notícia no Brasil. Era dela o arranjo vitorioso da
Banda; e o incrível maestro Gaya, talvez o mais completo arranjador brasileiro,
se não existisse também Radamés Gnatalli. Fui apresentado a todos. Gaya já
tinha
ouvido falar de minhas músicas e disse que gostaria de escutá-las. Foi servido
um cafezinho. Depois, pediram que eu esperasse na outra sala, onde havia uma
tevê.

Ao final da reunião secreta, chamaram-me de volta. Foi então que se deu
a cena de que quero falar: Guerra Peixe, de repente, surgiu com algumas
partituras e as distribuiu entre os outros. Informou que era um chorinho
que lhe
viera à cabeça na noite anterior. Confirmaram o tom. E, a um comando dele,
passaram a solfejá-lo. Fiquei ali, estarrecido, emocionado, vendo os maestros
comunistas solfejando, com contrapontos, fugas e outras peripécias, o chorinho
mais comovente que já escutei em toda a minha vida.

Não existem mais. Nem eles, nem aquele Brasil. Mas o Cervantes continua
firme na Rua Prado Júnior. Com o mesmo milanesa com purê, que o compositor
rural
saboreou - sentindo as belíssimas músicas ecoando pelas velhas paredes - bêbado
de saudade.






 


Terça-feira, Abril 13, 2004

HINO À BELEZA

Vens tu do céu profundo ou sais do precipício,
Beleza ? Teu olhar, divino mas daninho,
confusamente verte o bem e o malefício,
e pode-se por isso comparar-te ao vinho.

Em teus olhos refletes a luz diuturna;
lanças perfumes como a noite tempestuosa;
teus beijos são um filtro e tua boca uma urna
que torna o herói covarde e a criança corajosa.

Provéns do negro abismo ou da estrela infinita ?
Como um cão te acompanha a Fortuna encantada;
semeias ao acaso alegria e a desdita
e altiva segues sem jamais responder nada.

Calcando mortos vais, Beleza, a escarnecê-los;
em teu escrínio o horror é jóia que cintilia,
e o Crime, esse berloque que te aguça os zelos,
sobre teu ventre em amorosa dança oscila.

A mariposa voa ao teu encontro, ó vela,
freme, inflama-se e diz : " Ó clarão abençoado ! "
O arfante namorado aos pés de tua bela
recorda um moribundo ao túmulo abraçado.

Que venhas lá do céu ou do inferno, que importa,
Beleza ! Ó monstro ingênuo, gigantesco e horrendo !
Se teu olhar, teu riso, teus pés me abrem a porta
de um infinito que amo e que jamais desvendo ?

De Satã ou de Deus, que importa ? Anjo ou Sereia,
que importa, se és quem fazes - fada de olhos suaves,
ó rainha de luz, perfume e ritmo cheia ! -
Mais humano o universo e as horas menos graves ?

Charles Baudelaire - As Flores do Mal -SPLEEN E IDEAL


 


Terça-feira, Abril 06, 2004

TRANSFORMAÇÕES

Estou lendo, desde dezembro do ano passado um livro do Thomas Mann.
Vocês podem estar se qüestionando como posso estar lendo o mesmo livro desde Dezembro ? Não responderei agora, apenas acrescentarei que cheguei aproximadamente na metade dele !
É simplesmente pelo fato de que um livro do T. Mann não é relevante pelo início ou o fim, mas pelo meio, o recheio.
O livro tem 868 páginas, é grande, mas já li livros deste porte em 2 meses.
Vocês já devem estar curiosos para saber que livro mágico é esse !
Na verdade A Montanha é mágica.
É maravilhoso, embora ela não seja tão maravilhosa assim.
Há um pedaço em especial que achei poético. E gostaria de acrescentar que o mesmo tema já tinha sido genialmente escrito pelo poeta T.S. Eliot, da mesma época do T. Mann.
Não sei se houve influência de um para com o outro, se "coincidência", ou se era um tema em pauta na época, mas a maneira como Thomas Mann escreveu este fragmento, deixou-me emocionado.
Irei transcrevêlo agora :

Transformações

Que é o tempo ? Um mistério: é imaterial e - onipotente. É uma condição do mundo exterior; é um movimento ligado e mesclado à existência dos corpos no espaço e à sua marcha. Mas deixaria de haver tempo se não houvesse movimento ? Não haveria movimento sem o tempo ? É inútil perguntar. É o tempo uma função do espaço ? Ou vice-versa ? Ou são ambos idênticos ? Não adianta prosseguir perguntando. O tempo é ativo, tem caráter verbal, "traz consigo". Que é traz consigo ? A transformação. O Agora não é o então; o Aqui é diferente do Ali; pois entre ambos se intercala o movimento. Mas, visto ser circular e fechar-se sobre si mesmo o movimento pelo qual se mede o tempo, trata-se de um movimento e de uma transformação que quase poderiam ser classificadas de repouso e imobilidade : o Então repete-se constantemente no agora, e o Ali repete-se no Aqui. Como, por outro lado, nem sequer os mais desesperados esforços nos podem fazer imaginar um tempo finito ou um espaço limitado, decidimo-nos a configurar eternos e infinitos o tempo e o espaço, evidentemente na pna esperança de obter dessa forma um resultado, senão perfeito, ao menos melhor. Ora, estabelecer o postulado do eterno e do infinito não significa, porventura, o aniquilamento lógico e matemático de tudo quanto é limitado e finito, e a sua redução a aproximadamente zero ? É possível uma sucessão no eterno ou uma justaposição no infinito ? São comparáveis com as hipóteses de emergência do eterno e do infinito, conceitos como os da distância, do movimento, da transformação, ou a simples existência dos corpos limitados no Universo ? Quantas perguntas improfícuas !


Temos que levar em consideração que este texto tem 80 anos, várias perguntas dessas já foram resolvidas, ou parcialmente respondidas, dentro da limitação de observação do homem, mas que o texto é bonito é !

abs

w.c.




 


Quarta-feira, Março 31, 2004

O PRIMEIRO TANGO BRASILEIRO.

A insistência de críticas desarrazoadas e o acolhimento
que essas mesmas críticas tiveram, posteriormente, por comentaristas
apressados, levaram Ernesto Nazareth para o terreno
do debate, a fim de defender a tese do emprego do termo
tango que usava para designar certos tipos de músicas de
caráter nacionalista.
Uma pergunta é preciso destacar e comentar, inicialmente:
porque se achou que Nazareth não escrevia tangos,
porém maxixes? Não eram tangos que compunham, desde
muito tempo, Chiquinha Gonzaga, Cinira Polônio, Arthur
F. da Rocha, Miguel Rodrigues Gavote, Henrique Braga,
Augusto Portugal, F. Alvarenga, etc, para citar apenas,
os autores que publicaram tal género entre 1881 e 1882?
— Será porque se presumiu que o termo tango é privativo
do acervo artistico-cultural da Argentina?
Acreditamos que não, pelo seguinte fato que todos conhecemos:
o tango "genuinamente brasileiro" (como escreveu
Nazareth), é música pura, enquanto o tango argentino é
música dramática. Logo, não vamos começar taxando nossos
críticos e comentaristas, de ignorantes.
Outra pergunta se impõe:
— Haverá, porventura, alguma coisa ligando o nome
"tango" ao folclore portenho? Pelo menos daquilo que sabemos,
a resposta é negativa. Já no caso de nosso país o assunto
é diferente: o termo tango, não apenas ocorre no folclore,
como existe no vocabulário tupi (20) e tem correspondente
no idioma dos tapuias. Quer isso dizer que o termo tango
é tradicional no Brasil pré-cabraliano.
Outra pergunta se faz necessária: esses tangos de Nazareth
têm alguma coisa com a palavra tang de nossos antigos
ameríndios? Também, não. Porém é preciso esclarecer, por
outro lado: tango argentino nada tem de comum com tango
brasileiro, do mesmo modo que fandango do Sul do Brasil
nada tem com o fandango do Norte.

(20) Tang — termo do vocabulário tupi — Padre Lemos Barbosa.
Tang — termo encontrado no vocabulário Cariri — J. J. Silva
Guimarães (Bahia, 1854).

Por igual, violone não é violão. Os vocábulos, embora
semelhantes têm significação diversa: violone em italiano,
é viola grande, contra-baixo, violão é guitarra espanhola.
Perguntarão, ainda uma vez:
— Não será porque o tango, fato musical, tem precedência
em Buenos Aires? Ainda aqui a resposta é negativa.
Basta ver que o tango (música pura) mais antigo no Brasil
que se conhece é aquele empregado por Henrique Alves de
Mesquita, na peca de sua autoria Ali-Babá, levada em 1872
no Teatro Phenix Dramática. (21)

Além da obra citada, que foi repetida durante vários
meses, apareceu outra, que também incluía tango: A Princesa
dos Cajueiros, cuja música era da autoria do compositor
português radicado no Brasil, Sá Noronha. O tango
aí incluído era feito para piano e orquestra, segundo anúncio
da época. (Jornal do Comércio, 26 de julho de 1880).
O espetáculo realizado, em benefício da viúva do "sempre
chorado maestro Calado", contou com a presença de Carlos
Gomes, e o tango foi muito aplaudido.
Portanto, durante cerca de sete anos consecutivos o
Theatro Phenix Dramática lançou o gênero tango brasileiro,
em representações sucessivas e sempre com enorme agrado
público. Daí começou ele a ganhar as ruas da cidade, tanto
que, entre 1884 e 1888, Machado de Assis declarava, na
Gazeta de Noticias que ouvira tangos executados nos "sinos
musicais" das igrejas metropolitanas.
É a prova autêntica da popularidade do gênero tango,
na música ligeira, com características próprias e forma estável.
Foi aliás, esse jeito brasileiro do tango, que apareceu
no fim do século passado, que cooperou para a feliz escolha
que dele fez Nazareth, para a construção de suas músicas
originais. Viu claramente que os efeitos passionais não se
coadunavam com o remelexo abusivo do lundu e, muito
menos, com o gingado sensual do maxixe urbano. (O mesmo
pensamento iluminou Alexandre Levy ao escrever seu Tango
Brasileiro).
Apesar de tudo isso, nas entrelinhas escritas por musicólogos
nacionais, cheias de sutil malícia, configura-se, desde
1927, a idéia, absurda e perniciosa, de que Ernesto Nazareth
"escondia com rótulo de tangos, consciente ou inconscientemente
(sic) outras formas musicais".


(21) Encontramos depois, o Tango Olhos Matadores, de Mesquita,
publicado em 1871.

Essas inverdades e aleivosias, divulgadas em tom brilhante,
e, além disso, amparadas pelo prestigio de vultos
influentes engajados nos grupos dominantes (as igrejinhas),
caíram no gosto de escribas neófitos e a coisa errada, ingrata,
perversa, correu de um extremo a outro do pais, na mais
lamentável das deturpações históricas.
A forma tango brasileiro, de Ernesto Nazareth é objetiva,
irrefutável, coerente, e se estriba geralmente, no rondó clássico
de cinco seções. Não se pode dizer o mesmo do maxixe
que não tem forma estável nem definida; utiliza, esquema
vário, isto é, se fundamenta na estética, notadamente, da
forma variação. Tal qual seu ancestral direto—o batuque —
é fortemente ativo, repelindo, em razão do próprio ambiente
dinamogênico, as alternativas agógico-dinâmicas inerentes
às atmosferas expressivas.
Outro aspecto digno de nota é o seguinte: se, nos tangos
brasileiros o canto pode fluir livremente sobre esquema
harmônico (no estilo da melodia acompanhada), também
soe acontecer o diálogo, cuja origem se pode buscar no antigo
ricercare da época, das velhas tablaturas.
Nos tangos brasileiros de Ernesto Nazareth a melodia
é condição primordial. Porém, não quer dizer que seu conteúdo
não possa estar disseminado em vários planos e outros
tantos registros sonoros. Contudo não é somente esse aspecto
que devemos considerar em primeiro lugar. Há, também, o
problema da expressão, o qual vive latente em cada membro,
frase, período, bem como, sua relação imanente com os movimentos
adequados.
Vemos, por outro lado, que a estética dos rondos clássicos,
repele, de maneira absoluta, os elementos de origem
passional. O rondó exige ainda, tonalidades definidas, acentos
métricos e ritmos precisos.
Todavia, é mister lembrar, a forma rondó pode ser ajustada
a outros conteúdos musicais, que se sujeitem a gênero
e estilos diferentes e autônomos. É a consagrada forma mista.
E, nessa jusante sossobraram os neófitos que não acertaram
mão no galho salvador. Pobres coitados! Apenas conhecem
o perfume da flor onde têm de estudar a natureza e as
propriedades nos poucos recursos do material exangue, cujas
substâncias se volatilizaram no processo difuso.

A unidade de pensamento em Ernesto Nazareth (que
lhe confere estilo próprio), segue a diretiva estilística; seu
equilíbrio, tem apoio nos elementos agógicos e dinâmicos
coercitivos, em função do esclarecimento das originalidades
nacionais. A melodia é tudo, mas tem seu limite, sua fisionomia
instrumental, corporificada num todo, ao se ajustar
e conjugar na ambientação, juntamente com os demais elementos
da construção musical. E, de tal sorte se desempenhou
Nazareth, de tão difícil missão, que podemos constatar,
a qualquer momento, a perfeição em que se houve,
atingindo o máximo sem rebuscamentos e intrusões.

ORIGEM DO TANGO BRASILEIRO
Em 1840 o Jornal do Comércio do Rio de Janeiro anunciava
o baile Telémaco na ilha de Calipso que vinha sendo
praticado desde o fim do século XVIII. Em abril de 1841
o mesmo bailado fôra anunciado e repetido com sucesso.
Acontece que cada vez que era levado à cena o bailado
Telémaco na ilha de Calipso paralelamente surgia a tragédia
de Antônio José (o Judeu). Em 1849 trouxe o teatro a novidade
do Sancho Pança — Governador da ilha dos Lagartos,
também da autoria do infeliz poeta carioca queimado em
Lisboa. Talvez por isso Adolpho Varnhagen tivesse escrito,
em 1850 no livro Florilégio da Poesia Brasileira, pág. 257 da
edição da Academia, que Telemaco na ilha de Calipso, que
possuía em manuscrito "poderia ser obra de António José
por ser muito no seu estilo"... Que nos conste jamais foi
contestada essa suposição do erudito escritor Barão e Visconde
de Porto Seguro. Quando em 1853 foi anunciada a
tragédia Antônio José, em cinco atos, o nome do libretista apareceu
pela primeira vez: Gonçalves de Magalhães; ele dava
novo rumo à comédia nacional. No fim do ano de 1853 volta
a ser representada a comédia brasileira aludida, desta vez
trazendo uma novidade que a imprensa destacou — "uma
canção em língua nacional". Mas o curioso é que o bailarino
De-Vecchi fez um divertimento com o velho bailado Telemaco
na ilha de Calipso e para surpresa sua viu que também
fôra encenado o António José do Sr. Magalhães, como
que para lembrar a relação que havia entre os dois assuntos.
Seis anos depois voltou a comédia brasileira António José ou
o Judeu e a Inquisição ao teatro São Pedro de Alcântara, incluindo-
se velha peça do início do século — o lundu de mon
roy — que obteve retumbante sucesso.
Com as atividades da Ópera Nacional a cargo de D. José
Amat, as atividades teatrais dos brasileiros ficaram em plano
absolutamente secundário. Mas 1863 trazia uma novidade
digna de nota: TANGO — chanson havaneise de Lucien Buscquet
(Boucquet ou Bousquet) em transcrição de F. Crose
(Jornal do Comércio, 31 de maio de 1863). O autor dessa obra
devia ser Mr. Lucien Boucquet que atuava na Troupe Parisienne.
Convém destacar que esse tango era música tradicional
incluída na peça L'ilhe du Calypso, opereta bufa em
um ato, que estava sendo representada no Lírico Fluminense
(13-2-863).
Durante cerca de três anos não se falou mais na obra
denominada Tango que fazia parte da Ilha de Calipso, nem
em seu autor, até que chegou ao Brasil, vindo da Espanha,
mesmo em 1866 um grupo de havaneras de José Yradier, entre
elas La Paloma e El Arregltto. Já no Alcazer (antigo El-
Dorado) Mr. Lucien Boucquet anunciava to Chanson de Fortunio
— tyrolienne que obteve pleno êxito. Essa obra alternava
constantemente com o Chico Quendo nas atividades de
Valotte e Escudero.
A complicação no nome de Lucien Boucquet vem de uma
feia briga que teve com o diretor Joseph Arnaud e a imprensa
querendo apoiar o mais importante fez toda sorte de intrigas
contra o infeliz ator cômico.
No dia 2 de fevereiro de 1871 o Jornal do Comércio trazia
o seguinte anúncio: "Jovem Telêmaco, zarzuela espanhola
em 2 atos, imitada em versos portugueses por Eduardo Garrido.
Música do maestro espanhol José Rogel. A ação se
passa na Ilha de Calipso. É um episódio lírico-burlesco com
doze músicas todas novas. Traz dois tangos — o do Jovem
Telêmaco e o de Calipso. Direção de Furtado Coelho. Representação
na Teatro São Luiz". E no dia 28 de fevereiro
do mesmo ano: "saiu à luz o Jovem Telêmaco para piano
solo, tirado da ópera que se representará no S. Luiz". Entretanto
o nome "tango" ligado à música já estava concretizado
no Brasil por Henrique Alves de Mesquita em sua peça
Ali-Babá e os quarenta ladrões que por dificuldades financeiras
somente foi encenado em 28 de setembro de 1872. Essa
dificuldade econômica e financeira vem explicada por Eduardo
Garrido quando fez o anúncio da obra.
Mas o que não resta dúvida é que o termo tango apareceu,
pela primeira vez, no Rio de Janeiro na composição do
bufo Lucien Boucquet, e quando aqui chegou a "havanera"
de Rogel Jovem Telêmaco, os brasileiros mudaram a indicação
genérica para "tango". Por isso os espanhóis não puderam
saber como surgiu o termo "tango" ligado a assunto
musical. Entretanto o tango do Ali-Babá de Henrque Alves
de Mesquita, em sucessivas representações (durante cerca de
trinta anos) garantiu a estabilidade desse gênero de música
ligeira, nos palcos dos teatros populares do Rio de Janeiro.
Ernesto Nazareth com suas atividades artísticas sistematisou
o "tango brasileiro" na forma do rondó de cinco seções de
maneira expressiva e genial.

Extraído de : Baptista Siqueira em seu livro "Ernesto Nazareth na Música Brasileira".
Fonte : Alexandre Dias - Pianista



 



A HISTÓRIA SOCIAL DO VIOLÃO NO BRASIL

Prezados amigos.
Como o Violão é o meu primeiro instrumento ( clássico e popular ) deixo aqui registrado um pouco da história social do violão, no Brasil.
Nota : Obviamente, em cada país a evolução deste maravilhoso instrumento acompanhou suas próprias leis evolutivas.
Entretanto, considero a formação do violonista no Brasil incompleta, devido a falta de registros históricos, e grandes lacunas de informações no século XIX e XX.
Deixarei alguma coisa aqui, de minhas pesquisas.


O violão era considerado em nosso pais um instrumento acompanhador de
modinhas, até que surgiu o engenheiro Clementino Lisboa com seu talento
incomum e o levou para os salões da corte,por volta de 1865. Suas audições
no Club Mozart eram muito concorridas e suas transcrições para o violão de
peças clássicas do repertório pianístico eram admiradas até pelo célebre
compositor e pianista norteamericano Gottschalk. Após isto, o violão
retornou à sua condição inicial até que, com o advento do choro e a
conseqüente dificuldade de execução, passa o violão a um grau de maior
elaboração técnica. Esta demanda é suprida pelos métodos de Carcassi, Aguado
e Sor e surge a figura de Quincas Laranjeiras (Joaquim dos Santos) como o
grande professor,primos inter pares dos chorões do início do século XX.
Outro nome importante nesta cruzada pelo violão brasileiro é o do maestro
Ernani Figueiredo, ajudando a fazer a ponte entre o erudito e o popular.
Em 1906 o projeto de reurbanização de Pereira Passos acirra o confronto
entre classes sociais. A truculência na sua implementação, as indenizações
ridículas pagas pelas demolições dos cortiços de algumas áreas do centro da
cidade gera uma grande revolta por parte da população mais pobre e que era
constituída, em sua maioria, por negros e mestiços. Era preciso manter a
ordem a qualquer preço e todos que a ela se opunham eram qualificados de
desordeiros, vagabundos ,tocadores de violão...Daí aquela famosa história do
chefe de policia que prendia a quem possuísse calos nas pontas dos dedos.
Em 1908 o violão é o personagem principal de uma audição de Quincas,Ernani e
Catulo da Paixão Cearense no Instituto Nacional de Música. Por sinal, foi
Catulo quem levou o violão aos redutos da aristocracia, fazendo com que
muitas senhoras e senhoritas da alta sociedade se acompanhassem ao violão.
Em 1914 a então primeira dama(Nair de Teffé) foi duramente criticada por Ruy
Barbosa por ter se apresentado ao violão,numa recepção palaciana, tocando o
“Corta-jaca”, música da maestrina Chiquinha Gonzaga. A partir de 1916,com a
presença de Agustín Barrios e,no ano seguinte, de Josefina Robledo,passa o
violão a ser olhado com outros olhos bem mais generosos. Por esta época o
repertório violonístico contém um grande número de peças de fôlego graças
as transcrições de Tárrega, Barrios e principalmente Segóvia. Por aqui a
revista “O Violão” passa, a partir de 1928, a difundir os ensinamentos de
Tárrega e a prestigiar as atividades artísticas profissionais e amadoras.
Quincas Laranjeiras, Ernani Figueiredo, Sátiro Bilhar, Brant Horta ,João
Pernambuco e Américo Jacomino são os pilares da escola violonistica
brasileira.


 


Sexta-feira, Março 12, 2004

O CHORO - Segunda parte

De fato, alguns choros ganharam letra muito tempo depois de serem compostos, ou mesmo depois que seu autor já havia morrido.
Um exemplo é o Odeon, de Ernesto Nazareth. Ele ganhou letra na época, por um tal de Hubaldo Maurício, de quem nada se sabe. Porém foi só em 1968 que ganhou a letra de Vinícius de Moraes que iria imortalizá-lo na gravação da Nara Leão (na verdade, foi ela que pediu ao Vinícius que colocasse a letra).
Com o Apanhei-te Cavaquinho aconteceu algo similar. Achei na internet esse texto: http://www.musicasmaq.com.br/apanhei.htm

"Dentre as composições de Nazareth, a polca "Apanhei-te, Cavaquinho" perde em segundo lugar apenas para "Odeon" em número de gravações.
Ao longo dos anos, a música ganhou quatro letras:
1 - A primeira, escrita por Baldomán e incluída nas partituras, nunca foi gravada;
Apanhei-te, Cavaquinho! (Ernesto Nazareth/Baldomán)

2 - A segunda versão foi gravada por Ademilde Fonseca em 1943;
Apanhei-te, Cavaquinho! (Ernesto Nazareth/Darci de Oliveira/Benedito Lacerda)

3 - Não satisfeita com nenhuma das duas primeiras versões, Nara Leão escreveu uma terceira, que ela gravou no álbum de 1969 "Coisas do Mundo";
Apanhei-te, Cavaquinho! (Ernesto Nazareth/Nara Leão)

4 - Em 2001, o músico expatriado Paulinho Garcia escreveu letra para a parte A, que ele gravou com os flautistas Altamiro Carrilho e Julie Koidin no CD "Juntos". Os versos de Garcia são carregados de saudades dos velhos tempos em sua terra natal;
Apanhei-te, Cavaquinho! (Ernesto Nazareth/Paulinho Garcia)"



Outro exemplo é o Fausto Nilo que colocou letra na Espinha de Bacalhau do Severino Araújo. Não consegui achar o ano, mas foi com o concentimento do autor, como disse o próprio letrista em uma discussão que houve na Samba-Choro. A Gal Costa o gravou, e parece-me que o Ney Matogrosso tbm. Pena que a parte que faz juz ao título não recebeu letra. Mas também, acho que só a Ademilde Fonseca em seu auge conseguiria cantá-la.

1x0 é outra que ganhou letra do Nelson Angelo. (http://www.samba-choro.com.br/s-c/tribuna/samba-choro.0206/0464.html)
O grupo Arranco de Varsóvia o gravou (pena que o Céu da Boca já estava extinto quando essa letra surgiu), e parece que o Zé Renato também registrou no CD "A Alegria Continua". Nessa é complicado de se cantar afinado. Se na flauta já é muito difícil... Nota: no piano (entenda-se qualquer instrumento de teclado) essas músicas flautísticas são muito difíceis. Não sei como o Sivuca consegue tocar isso !

E por falar em complicação de se cantar, o Brasileirinho do Waldyr Azevedo recebeu letra do Pereira da Costa em 1950, e a Ademilde o gravou no mesmo ano acompanhada do autor. A letra infelizmente não utiliza uma sílaba para cada letra, mas isso é necessário para o intérprete respirar. Mesmo assim, quem tentou cantar isto depois da Ademilde se viu em apuros.

Outra música virtuosística que recebeu letra foi o Escorregando, do Nazareth. Quem a escreveu foi o Hermínio Bello de Carvalho e a Carol Saboya teve a coragem de gravar (claro que num passo bem mais lento que o normal, e com as paradas bluesísticas que o Antônio Adolfo, pai dela, faz ao piano entre cada estrofe. Mas no final ela arrisca tudo cantando o mais rápido que consegue heheheh). Dentre as muitas letras que o Hermínio escreveu, lembro de outra que tbm é para um choro, mas desa vez bandolinístico: Noites Cariocas do Jacob do Bandolim (http://letras.cafemusic.com.br/biblioteca_letra.cfm?ID=3292).

Pixinguinha também teve alguns choros letrados, como é o caso de Lamento(s). Vinícius de Moraes escreveu uma letra leve que foi gravada brilhantemente pela Zizi Possi no CD "Valsa Brasileira" de 1993.

Naquele Tempo recebeu letra de Jair Amorim (http://www.musicasmaq.com.br/naquelet.htm). Sei que ele foi gravado pelo menos uma vez, no CD "Zivaldo canta" (Modo Maior Produções Artísticas, 1999).

Sofres Porque Queres foi gravado pela cantora Isaura Garcia, mas não sei quem fez a letra.

Quanto ao Carinhoso, há um texto elucidativo no site da Collector's (onde aliás, pode-se encontrar gravação "não-comerciais" do Pixinguinha como intérprete ao saxofone, ao vivo em programas de rádio):
http://www.collectors.com.br/CS06/cs06_05d.shtml
"O choro é um gênero musical especificamente instrumental, embora, vez por outra, algum compositor coloque letra na música fazendo dela um sucesso popular mesmo entre os não instrumentistas. O exemplo mais famoso é o de Carinhoso de Pixinguinha que recebeu letra de João de Barro e foi gravado por Orlando Silva com estrondoso sucesso.

A história de Carinhoso está contada por Jairo Severiano no seu excelente livro "Yes, nós temos Braguinha", sobre a vida de João de Barro. Resumidamente ele diz o seguinte: "O Carinhoso tem uma longa história que começa de forma inusitada, com o autor mantendo-o desconhecido por mais de dez anos. Esse ineditismo é justificado por Pixinguinha, no depoimento que concedeu ao Museu da Imagem e do Som do Rio de Janeiro em 1968: "Eu fiz o Carinhoso em 1917. Naquele tempo o pessoal nosso da música não admitia choro assim de duas partes (choro tinha que ter três partes). Então, eu fiz o Carinhoso e encostei. Tocar o Carinhoso naquele meio ! Eu não tocava. Ninguém ia aceitar."

A música só chegou ao disco em dezembro de 1928, interpretado pela Orquestra Típica Pixinguinha-Donga. Sem letra Carinhoso teria ainda mais duas gravações: uma pela Orquestra Victor Brasileira em 1929 e outra por Luperce Miranda em 1934. Segundo Jairo em ambos o nome da música aparece como Carinhos e não Carinhoso.

Em outubro de 1936 encenava-se no Teatro Municipal do Rio de Janeiro o espetáculo "Parada das Maravilhas", promovido por D. Darci Vargas em benefício da Casa do Pequeno Jornaleiro. Convidada a participar do espetáculo a atriz Heloisa Helena pediu ao João de Barro uma canção nova, que marcasse sua presença no palco. Não possuindo nenhuma na ocasião, o compositor aceitou a sugestão da amiga - Heloisa Helena - para que pusesse versos numa música já existente, o choro Carinhoso. Braguinha falou com Pixinguinha e no dia seguinte a letra estava pronta para Heloisa Helena cantar. Sem exagero - diz Jairo Severiano - Carinhoso só se tornou um dos maiores clássicos da música brasileira a partir do momento em que pôde ser cantado. Desde a primeira gravação de Orlando Silva em 28 de maio de 1937 até a saída do livro de Jairo em 1987, Carinhoso já havia registrado mais de 100 gravações.

Segundo Jairo, Orlando Silva reivindicava para si a idéia de colocar letra na música mas esta versão é desmentida por Pixinguinha, João de Barro e até Almirante que escreveu dois artigos sobre isso."





 


Segunda-feira, Março 08, 2004

O CHORO

Também conhecido por chorinho, um dos gêneros mais importantes da estética musical brasileira, é usualmente mal compreendido, desconhecido, ou sujeito a confusões.
Vamos lá ! Vamos todos chorar, por entendê-lo melhor !

O Choro no Nordeste

Bernardo Alves

É importante que digamos o que temos e o que somos, para que possamos
assim, entrar na história, sem esperar que os outros tenham
preocupação com a nossa participação nela. Contemos a nossa história,
para que amanhã não nos sintamos excluídos ou mal incluídos e
tenhamos que brigar pelo que de direito nos pertence.


Choro Cantado- somos pioneiros

O Choro com letra só foi conhecido no seu berço, o Rio de Janeiro em
1942, quando a cantora potiguar Ademilde Fonseca causou espanto geral
cantando o rapidíssimo "Tico Tico no Fubá" de Zequinha de Abreu.
Mas dois meses antes de Ademilde Fonseca nascer, e quatro meses antes
da chegada dos Oito Batutas ao Recife podemos provar que já se
cantava choro no Recife e isso naturalmente já vinha de muito tempo.
No início dos anos vinte a Casa Ribas, anunciava sob o
título `Sucesso do Carnaval de 1921 no Rio' alguns títulos entre e
eles `Não Há' de Manoel Machado seguido do seguinte
comentário: "Choro Pernambucano, levado com sucesso
pelo 'Sympathisado C.C.Vassourinhas' no carnaval de 1921"
Esse Choro pernambucano, foi um dos pontos altos do Baile de Máscaras
promovido pela Charanga do Recife do dia 05 de fevereiro daquele ano.
"O professor Manoel Machado apreciando todas as orquestras de 1921
destacou a dos Vassourinhas por sua afinação e offereceu um Choro de
sua lavra- "Não Há" que será cantado e executado pela mesma. (Grifo
Nosso)
A palavra "pernambucano" seguindo a palavra choro indicava que aquela
obra tinha "cores" locais, ou seja, uma maneira pernambucana de se
fazer choro.
Três anos depois, tínhamos notícia de outro choro cantado que fazia
parte do repertório do Bloco Power House; com letra de José Carilho e
música de Rego Barros intitulado "Choro da Power House".

ALVES, Bernardo. História do Carnaval de Pernambuco e . Outras
Histórias.


 


Quinta-feira, Setembro 04, 2003

FECHADO POR TEMPO IDETERMINADO


 



FECHADO POR TEMPO INDETERMINADO


 



FECHADO POR TEMPO INDETERMINADO


 


Terça-feira, Setembro 02, 2003

FECHADO POR TEMPO INDETERMINADO !




 


Segunda-feira, Junho 16, 2003

Mais um do Borges...


A linha consta de um número infinito de pontos, o plano , de um número infinito de linhas ; o volume , de um número infinito de planos, o hipervolume, de um número infinito de volumes...
Não, decididamente não é este, more geométrico, o melhor modo de iniciar meu relato.
Afirmar que é verídico é, agora, uma convenção de todo relato fantástico; o meu, no entanto, é verídico.
Vivo só, num quarto andar da rua Belgrano. Faz alguns meses, ao entardecer ouvi uma batida na porta. Abri e entrou um desconhecido. Era um homem alto, de traços mal conformados. Talvez minha miopia os visse assim. Todo o seu aspecto era de uma pobreza decente. Estava de cinza e trazia uma valize cinza na mão. Logo senti que era um estrangeiro. A princípio achei-o velho; logo percebi que seu cabelo escasso ruivo, quase branco , à maneira escandinava, me havia enganado. No decorrer de nossa conversa, que não duraria uma hora, soube que procedia das Orcadas.
Apontei-lhe uma cadeira. O homem demorou um pouco a falar. Exalava melancolia, como eu agora.
-Vendo bíblias – disse.
Não sem pedantismo respondi-lhe :
-Nesta casa há algumas bíblias inglesas, inclusive a primeira, a de John Wiclif. Tenho também a de Cipriano de Valera,a de Lutero, que literalmente é pior, e um exemplar latino da Vulgata. Como o senhor vê, não são precisamente bíblias o que me falta.
Ao fim de um silêncio respondeu :
-Não vendo apenas bíblias. Posso mostrar-lhe um livro sagrado que talvez lhe interesse. Eu o adquiri nos confins de Bikanir.
Abriu a valise e o deixou sobre a mesa. Era um volume em oitavo, encadernado em pano. Sem dúvida, havia passado por muitas mãos. Examinei-o; seu peso inusitado me surpreendeu. Na lombada dizia Haly Writ e abaixo, Bombay.
-Será do século dezenove – observei.
-Não sei. Não soube nunca – foi a resposta.
Abri-o ao acaso. Os caracteres me eram estranhos. As páginas, que me pareceram gastas e de pobre tipografia, estavam impressas em duas colunas, como uma bíblia. O texto era apertado e estava ordenado em versículos. No ângulo superior das páginas, havia cifras arábicas. Chamou-me a atenção que a página par levasse o número ( digamos ) 40.514 e a ímpar, a seguinte, 999. Virei-a; o dorso estava numerado com outra cifra. Trazia uma pequena ilustração, como é de uso de dicionários : uma âncora desenhada à pena, como pela desajeitada mão de um menino.
Foi então que o desconhecido disse :
-Olhe-a bem. Já que nunca mais a verá.
Havia uma ameaça na afirmação, mas não na voz.
Fixei-me no lugar e fechei o volume. Imediatamente o abri. Em vão busquei a figura da âncora, folha por folha. Para ocultar o meu descontentamento, disse :
-Trata-se de uma versão da Escritura em alguma língua indostânica, não é verdade ?
-Não – replicou.
Logo baixou a voz como para me confiar um segredo.
-Adquiri-o em uma povoação da planície, em troca de algumas rupias e da Bíblia. Seu possuidor não sabia ler. Suspeito que no Livro dos Livros viu um amuleto. Era de uma casta mais baixa; as pessoas não podiam pisar sua sombra sem contaminação. Disse que seu livro se chamava O LIVRO DE AREIA, porque nem o livro nem a areia tem princípio ou fim.
Pediu-me que procurasse a primeira folha.
Apoiei a mão esquerda sobre a portada e abri com o dedo polegar quase pegado ao indicador. Tudo foi inútil : sempre se interpunham várias folhas entre a portada e a mão. Era como se brotassem do livro.
-Agora procure o final.
Também fracassei; apenas consegui balbuciar com uma voz que não era a minha :
-Isso não pode ser.
Sempre em voz baixa o vendedor de bíblias me disse :
-Não pode ser, mas é. O número de páginas deste livro é exatamente infinito. Nenhuma é a primeira; nenhuma é a última. Não sei porque estão numeradas desse modo arbitrário. Talvez para dar a entender que os termos de uma série infinita admitem qualquer número.
Depois, como se pensasse em voz alta :
-Se o espaço é infinito, estamos em qualquer ponto do espaço. Se o tempo é infinito, estamos em qualquer ponto do tempo.
Suas considerações me irritaram. Perguntei :
-O senhor é religioso, sem dúvida ?
-Sim, sou presbiteriano. Minha consciência está limpa. Estou seguro de não ter ludibriado o nativo quando lhe dei a Palavra do Senhor em troca do seu livro diabólico.
Assegurei-lhe que nada tinha a se recriminar e perguntei-lhe se estava de passagem por estas terras. Respondeu que dentro de alguns dias pensava em regressar à sua pátria. Foi então que eu soube que era Escocês, das ilhas Orcadas. Disse-lhe que a Escócia eu estimava pessoalmente por amor de Stevenson e de Hume.
-E de Robbie Burns – corrigiu.
Enquanto falávamos eu continuava explorando o livro infinito. Com falsa indiferença perguntei :
-O senhor se propõe a oferecer este curioso espécime ao Museu Britânico ?
-Não. Ofereço-o ao senhor – replicou e fixou uma soma elevada.
Respondi, com toda a verdade, que essa soma era inacessível para mim e fiquei pensando. Ao fim de poucos minutos, havia urdido meu plano.
-Proponho-lhe uma troca – disse. O senhor obteve este volume por algumas rupias e pela Escritura Sagrada; eu lhe ofereço o montante de minha aposentadoria que acabo de cobrar, e a Bíblia de Wiclif em letras góticas. Herdei-a de meus pais.
-A black letter Wiclif ! murmurou.
Fui ao meu dormitório e trouxe-lhe o dinheiro e o livro. Virou as páginas e estudou a capa com fervor de bibliófilo.
-Trato feito – disse.
Assombrou-me que não regateasse. Só depois compreenderia que havia entrado em minha casa com a decisão de vender o livro. Não contou as notas e guardou-as.
Falamos da índia, das Orcadas e dos Jarls noruegueses que as governavam. Era noite quando o homem se foi. Não voltei a vê-lo nem sei o seu nome.
Pensei em guardar o Livro de Areia no vão que havia deixado o Wiclif, mas optei finalmente por escondê-lo atrás de uns volumes desemparelhados de as Mil e uma Noites.
Deitei-me e não dormi. Às três ou quatro da madrugada, acendi a luz. Procurei o livro impossível e virei suas páginas, suas folhas. Em uma delas vi gravada uma máscara. O ângulo levava uma cifra, já não sei qual, elevada à nona potência.
Não mostrei a ninguém meu tesouro. À ventura de possuí-lo se agregou o temor de que o roubassem e, depois, o receio de que não fosse verdadeiramente infinito. Estas duas preocupações agravaram minha velha já misantropia. Restavam-me alguns amigos; deixei de vê-los. Prisioneiro do livro, quase não saía à rua. Examinei com uma lupa a lombada gasta e as capas e rechacei a possibilidade de algum artifício. Comprovei que as pequenas ilustrações distavam duas mil páginas uma da outra. Fui anotando-as em uma caderneta alfabética, que não demorei a encher. Nunca se repetiam. De noite, nos escassos intervalos que a insônia me concedia, sonhava com o livro.
O verão declinava e compreendi que o livro era monstruoso. De nada me serviu considerar que não menos monstruoso era eu, que o percebia com os olhos e o apalpava com dez dedos com unhas. Senti que era um objeto de pesadelo, uma coisa obscena que infava e corrompia a realidade.
Pensei no fogo, mas temi que a combustão de um livro infinito fosse igualmente infinita e sufocasse o planeta com fumaça.
Lembrei haver lido que o melhor lugar para ocultar uma folha é um bosque. Antes de me aposentar trabalhava na Biblioteca Nacional, que guarda novecentos mil livros; sei que à mão direita do vestíbulo, uma escada curva se some no sótão, onde estão os periódicos e os mapas. Aproveitei um descuido dos empregados para perder o Livro de Areia em uma das úmidas prateleiras. Tratei de não me fixar em que altura, nem a que distância da porta.
Senti um pouco de alívio, mas não quero nem passar pela rua México.

O LIVRO DE AREIA
JORGE LUIS BORGES



 



A TOCA DO CÃO, ORGULHOSAMENTE APRESENTA :



A Escrita do Deus
Jorge Luis Borges



O cárcere profundo e de pedra; sua forma de um
hemisfério quase perfeito,
embora o piso (também de pedra) seja algo menor que um
círculo máximo, fato que de algum modo agrava os
sentimentos de opressão e de grandeza. Um muro corta-o
pelo meio; este, apesar de altíssimo, não toca a parte
superior da abóbada; de um lado estou eu, Tzinacan,
mago da pirâmide Qaholom, que Pedro de Alvadaro
incendiou; do outro há um jaguar, que mede com
secretos passos iguais o tempo e o espaço do
cativeiro. Ao nível do chão, uma ampla janela com
barrotes corta o muro central. Na hora sem sombra (o
meio-dia), abre-se um alçapão no alto e um carcereiro
que os anos foram apagando manobra uma roldana de
ferro, e nos baixa, na ponta de um cordel, cântaros de
água e pedaços de carne.

A luz entra na abóbada; neste instante posso ver o
jaguar. Perdi o número dos anos que estou na treva;
eu, que uma vez fui jovem e podia caminhar nesta
prisão, não faço outra coisa senão aguardar, na
postura de minha morte, o fim que os deuses me
destinam. Com a longa faca de pedernal abri o peito
das vítimas e agora não poderia, sem magia,
levantar-me do pó.

Na véspera do incêndio da Pirâmide, os homens que
desceram de altos cavalos me castigaram com metais
ardentes para que revelasse o lugar de um tesouro
escondido. Abateram, diante de meus olhos, a imagem do
deus, mas este não me abandonou e me mantive
silencioso entre os tormentos. Feriram-me,
quebraram-me, deformaram-me e depois despertei neste
cárcere, que não mais deixarei nesta vida mortal.

Premido pela fatalidade de fazer algo, de povoar de
alguma forma o tempo, quis recordar, em minha sombra,
tudo o que sabia. Gastei noites inteiras lembrando a
ordem e o número de algumas serpentes de pedra ou a
forma de uma árvore medicinal. Assim fui vencendo os
anos, assim fui entrando na posse do que já era meu.
Uma noite, senti que me aproximava de uma lembrança
precisa; antes de ver o mar, o viajante sente uma
agitação no sangue. Horas depois, comecei a avistar a
lembrança; era uma das tradições do deus. Este,
prevendo que no fim dos tempos ocorreriam muitas
desventuras e ruínas, escreveu no primeiro dia da
Criação uma sentença mágica, capaz de conjurar esses
males. Escreveu-a de maneira que chegasse às mais
distantes gerações e que não tocasse o azar. Ninguém
sabe em que ponto a escreveu nem com que caracteres,
mas consta-nos que perdura, secreta, e que um eleito a
lerá. Considerei que estávamos, como sempre, no fim
dos tempos e que meu destino de último sacerdote do
deus me daria acesso ao privilégio de intuir essa
escritura. O fato de que uma prisão me cercasse não me
vedava esta esperança; talvez eu tivesse visto
milhares de vezes a inscrição de Qaholom e só me
faltasse entendê-la.

Esta reflexão me animou e logo me intuiu uma espécie
de vertigem. No âmbito da terra existem formas
antigas, formas incorruptíveis e eternas; qualquer uma
delas podia ser o símbolo buscado. Uma montanha podia
ser a palavra do deus, ou um rio ou o império ou a
configuração dos astros. Mas no curso dos séculos as
montanhas se aplainam e o caminho de um rio costuma
desviar-se e os impérios conhecem mutações e estragos
e a figura dos astros varia. No firmamento há mudança.
A montanha e a estrela são indivíduos e os indivíduos
caducam. Busquei algo mais tenaz, mais invulnerável.
Pensei nas gerações do cereais, dos pastos, dos
pássaros, dos homens. talvez em minha face estivesse
escrita a
magia, talvez eu mesmo fosse o fim de minha busca.
Estava nesse afã quando
recordei que o jaguar era um dos atributos do deus.

Então minha alma se encheu de piedade. Imaginei a
primeira manhã do tempo, imaginei meu deus confiando a
mensagem à pele viva dos jaguares, que se amariam e se
gerariam eternamente, em cavernas, em canaviais, em
ilhas, para que os últimos homens a recebessem.
Imaginei essa rede de tigres, esse quente labirinto de
tigres, dando horror aos prados e aos rebanhos para
conservar um desenho. Na outra cela havia um jaguar;
em sua proximidade percebi uma confirmação de minha
conjectura e um secreto favor.

Dediquei longos anos a aprender a ordem e a
configuração das manchas. Cada
cega jornada me concedia um instante de luz, e assim
pude fixar na mente as
negras formas que riscavam o pêlo amarelo. Algumas
incluíam pontos; outras
formavam raias transversais na face inferior das
pernas; outras, anulares, se
repetiam. Talvez fossem um mesmo som ou uma mesma
palavra. Muitas tinham bordas vermelhas.

Não falarei das fadigas de meu labor. Mais de uma vez
gritei à abóbada que
era impossível decifrar aquele texto. Gradualmente, o
enigma concreto que me
atarefava me inquietou menos que o enigma genérico de
uma sentença escrita por um deus. Que tipo de sentença
(perguntei-me) construirá uma mente absoluta?
Considerei que mesmo nas linguagens humanas não existe
proposição que não envolva um universo inteiro; dizer
o tigre é dizer os tigres que o geraram, os cervos e
tartarugas que ele devorou, o pasto de que se
alimentaram os cervos, a terra que foi a mãe do pasto,
o céu que deu luz à terra. Considerei que na linguagem
de um deus toda palavra enunciaria essa infinita
concatenação dos fatos, e não de um modo implícito,
mas explícito, e não de um modo progressivo, mas
imediato. Com o tempo, a noção de uma sentença divina
pareceu-me pueril ou blasfematória. Um deus, refleti,
só deve dizer uma palavra e nessa palavra a plenitude.
Nenhum som articulado por ele pode ser inferior ao
universo ou menos que a soma do tempo. Sombras ou
simulacros desse som, que eqüivale a uma linguagem e a
quanto pode significar um linguagem, são as ambiciosas
e pobres vozes humanas, tudo, mundo, universo.

Um dia ou uma noite - entre meus dias e minhas noites
que diferença existe? - sonhei que no chão do cárcere
havia um grão de areia. Voltei a dormir,
indiferente; sonhei que despertava e que havia dois
grãos de areia. Voltei a
dormir, sonhei que os grãos de areia eram três. Foram,
assim, multiplicando-se
até encher o cárcere e eu morria sob este hemisfério
de areia. Compreendi que
estava sonhando; com um enorme esforço, despertei. O
despertar foi inútil: a
inumerável areia me sufocava. Alguém me disse: "Não
despertaste para a vigília,
mas para um sonho anterior. Esse sonho está dentro de
outro, e assim até o
infinito, que é o número dos grãos de areia. O caminho
que terás que desandar é
interminável e morrerás antes de haver despertado
realmente
".

Senti-me perdido. A areia me enchia a boca, mas grite:
"Nenhuma areia sonhada pode matar-me nem existem
sonhos dentro de sonhos". Um resplendor me despertou.
Na treva superior abria-se um círculo de luz. Via a
face e as mãos do carcereiro, a roldana, o cordel, a
carne e os cântaros.

Um homem se confunde, gradualmente, com a forma de seu
destino; um homem é, afinal, suas circunstâncias. mais
que um decifrador ou um vingador, mais que um
sacerdote do deus, eu era um encarcerado. Do
incansável labirinto de sonhos regressei à dura prisão
como à minha casa. Bendisse sua umidade, bendisse seu
tigre, bendisse meu velho corpo dolorido, bendisse a
treva e a pedra.

Então ocorreu o que não posso esquecer nem comunicar.
Ocorreu a união com a divindade, com o universo (não
sei se estas palavras diferem). O êxtase não repete
seus símbolos; há quem tenha visto Deus num
resplendor, há quem o tenha percebido numa espada ou
nos círculos de uma rosa. Eu vi uma Roda altíssima,
que não estava diante de meus olhos, nem atrás, nem
nos lados, mas em todas as partes, a um só tempo. Essa
Roda estava feita de água, mas era também de fogo, e
era (embora visse a borda) infinita. Entretecidas,
formavam-na todas as coisas que serão, que são e que
foram, e eu era um dos fios dessa trama total, e Pedro
de Alvarado, que me atormentou, era outro. Ali estavam
as causas e os efeitos e me bastava ver essa roda para
entender tudo, interminavelmente. Oh, felicidade de
entender, maior que a de imaginar ou a de sentir! Vi o
Universo e vi os íntimos desígnios do universo. Vi as
origens narradas pelo Livro do Comum. Vi as montanhas
que surgiram na água, vi os primeiros homens com seu
bordão, vi as tinalhas que se voltaram contra os
homens, vi os cães que lhes desfizeram os rostos. Vi o
deus sem face que há por trás dos deuses. Vi infinitos
processos que formavam uma só felicidade e, entendendo
tudo, consegui também entender a escrita do tigre.

É uma fórmula de catorze palavras casuais (que parecem
casuais) e me bastaria dizê-la em voz alta para ser
todo-poderoso. Bastaria dizê-la para abolir este
cárcere de pedra, para que o dia entrasse em minha
noite, para ser jovem, para ser imortal, para que o
tigre destruísse Alvarado, para afundar o santo punhal
em peitos espanhóis, para reconstruir a pirâmide, para
reconstruir o império. Quarenta sílabas, quatorze
palavras, e eu, Tzinacan, regeria as terras que
Montezuma regeu. Mas eu sei que nunca direi estas
palavras, porque eu não me lembro e Tzinacan.

Que morra comigo o mistério que está escrito nos
tigres. Quem entreviu o universo, quem entreviu os
ardentes desígnios do universo não pode pensar num
homem, em suas triviais venturas ou desventuras, mesmo
que esse homem seja ele. Esse homem foi ele e agora
não lhe importa. Que lhe importa a sorte daquele
outro, que lhe importa a nação daquele outro, se ele
agora é ninguém? Por isto não pronuncio a fórmula, por
isso deixo que os dias me esqueçam, deitado na
escuridão.



 


Quarta-feira, Maio 28, 2003

A TOCA DO CÃO ORGULHOSAMENTE APRESENTA :

HISTÓRIAS REAIS

Primeira História

Termodinâmica do inferno

Pergunta feita pelo Dr. Fernando, da FATEC em sua prova final do curso de
maio de 1997.
Este doutor é reconhecido por fazer perguntas do tipo:
"Por que os aviões voam?" em suas provas finais.
Sua única questão na prova final de maio de 1997 para sua turma foi:
"O inferno é exotérmico ou endotérmico?
Justifique sua resposta."
Vários alunos justificaram suas opiniões baseados na Lei de Boyle ou em
alguma variante da mesma.
Um aluno, entretanto, escreveu o seguinte:
"Primeiramente, postulamos que se almas existem, então elas devem ter
alguma massa.
Se elas têm, então um conjunto de almas também tem massa.
Então, a que taxa as almas estão se movendo para fora e a que taxa elas
estão se movendo para dentro do inferno?
Então podemos assumir seguramente que uma vez que uma alma entra no
inferno ela nunca mais sai.
Por isso não há almas saindo.
Para as almas que entram no inferno, vamos dar uma olhada nas diferentes
religiões que existem no mundo hoje em dia.
Algumas dessas religiões pregam que se você não pertencer a ela, você vai
para o inferno...
Como há mais de uma religião desse tipo e as pessoas não possuem duas
religiões, podemos projetar que todas as almas vão para o inferno.
Com as taxas de natalidade e mortalidade do jeito que estão, podemos
esperar um crescimento exponencial das almas no inferno.
Agora vamos olhar a taxa de mudança de volume no inferno.
A Lei de Boyle diz que para a temperatura e a pressão no inferno serem as
mesmas, a relação entre a massa das almas e o volume do inferno deve ser
constante.
Existem então duas opções:
1) Se o inferno se expandir numa taxa menor do que a taxa com que as almas
entram, então a temperatura e a pressão no inferno vão aumentar até ele
explodir.
2) Se o inferno estiver se expandindo numa taxa maior do que a entrada de
almas, então a temperatura e a pressão irão baixar até que o inferno se
congele.
Se nós aceitarmos o que a menina mais gostosa da FATEC me disse no
primeiro ano: "Só irei pra cama com você no dia que o inferno congelar"
e, levando-se em conta que ainda NÃO obtive sucesso na tentativa de ter
relações sexuais com ela, então a opção 2 não é verdadeira.

Por isso, o inferno é exotérmico."

O aluno Sérgio Fonseca tirou o único 10 na turma ....




 


Sexta-feira, Maio 23, 2003

Última Parte do conto Micrômegas de Voltaire
Parte VII – Conversação com os homens



-Ó átomos inteligentes, em que o Ser Eterno se comprazeu em manifestar seu engenho e poderio, deveis sem dúvida gozar das mais puras alegrias sobre o vosso globo; pois , tendo tão pouca matéria e parecendo puro espírito, deveis passar a vida a amar e a pensar, que é o que constitui a verdadeira vida dos espíritos. A verdadeira felicidade , que não vi em parte alguma, com certeza é aqui que existe.
A tais palavras, todos os filósofos abanaram a cabeça; e um deles, mais franco que os outros, confessou de boa fé, excetuando um pequeno número de habitantes muito pouco considerados, o resto é tudo uma assembléia de loucos, maus e de infelizes.
-Nós temos aqui mais matéria do que é necessário – disse ele – para fazer muito mal , se o mal vem da matéria, e temos espírito em demasia, se o mal vem do espírito. Não sabeis , por exemplo, que, no instante em que vos falo, há cem mil loucos da nossa espécie, cobertos de chapéus, que matam cem mil outros habitantes cobertos de turbantes, ou que são massacrados por estes, e que, por quase toda a Terra, é assim que se faz desde tempos imemoriais ?
O siriano estremeceu e perguntou qual poderia ser o motivo dessas terríveis querelas entre tão mesquinhos animais.
-Trata-se – disse o filósofo – de uma porção de lama do tamanho de vosso calcanhar. Não que alguns desses milhões de homens que se exterminam pretenda um palmo que seja dessa lama. Trata-se apenas de saber se pertencerá a certo homem que se chama Sultão, ou a outro homem que se chama César, não sei por quê. Nenhum dos dois viu, ou jamais verá, o pedacinho de terra em questão, e quase nenhum desses animais que mutuamente se degolam já viu algum dia o animal pelo qual se degolam.
-Infelizes ! exclamou o siriano indignado. –Pode-se por acaso conceber mais furiosa loucura ? Vem-me até vontade de dar três passos e esmagar com três patadas esse formigueiro de ridículos assassinos.
-Não vos deis a esse incômodo; eles já trabalharam bastante para a sua própria ruína. Ficai sabendo que, passados dez anos, já não resta nem a centésima parte desses miseráveis, e, mesmo que não tivessem puxado a espada, a fome, à fadiga, ou a intemperança os levam a quase todos. Aliás , não é estes que é preciso punir, mas sim a esses bárbaros sedentários que, do fundo do seu gabinete, ordenam durante a digestão, o massacre de um milhão de homens, e em seguida o agradecem solenemente a Deus.
O viajante sentia-se apiedado da pequena raça humana, na qual descobria tão espantosos contrastes.
-Já que pertenceis ao pequeno número de sábios – disse-lhes ele – e aparentemente não matais a ninguém por dinheiro, dizei-me em que vos ocupas então.
-Dissecamos moscas – reparou o filósofo - , medimos linhas, encordoamos números, pomo-nos de acordo de dois ou três pontos que entendemos , e disputamos sobre dois ou três mil que não entendemos.
Ocorreu então ao siriano e ao companheiro a fantasia de interrogar aqueles átomos pensantes sobre coisas que ambos conheciam.
-Quanto contais – indagou Micrômegas – da estrela da Canícula à Grande estrela de Gêmeos ?
-Trinta e dois graus e meio – responderam ao mesmo tempo todos.
-Quanto contais daqui até a Lua ?
-Sessenta diâmetros da Terra, em números redondos.
-Quanto pesa o vosso ar ?
Supunha confundí-los nesse ponto, mas todos responderam que o ar pesa cerca de novecentas vezes menos que igual volume de água e dezenove mil vezes menos que o ouro.
O anãozinho0 de Saturno, atônito com suas respostas, sentiu-se tentado a tomar como feiticeiros àqueles mesmos a quem havia negado uma alma quinze minutos antes. Afinal disse-lhes Micrômegas :
-Já que sabeis tão bem o que se acha fora de vós, decerto sabeis ainda melhor o que tendes por dentro. Dizei-me o que é a vossa alma e como formais as idéias.
Os filósofos falaram ao mesmo tempo, como antes, mas foram de diferentes opiniões. O mais velho citava Aristóteles, outro pronunciava o nome de Descartes, este o de Malebranche, aquele o de Leibniz, aquele outro o de Locke. Um velho peripatético disse em voz alta com toda a segurança :
-A alma é uma enteléquia, razão pela qual tem o poder de ser o que é. É o que declara expressamente Aristóteles, página 633 da edição do Louvre...
-Não entendo muito bem o grego, disse gigante.
-Nem eu tampouco – replicou o inseto filosófico.
-Por que então – tornou o siriano – citais um certo Aristóteles em grego ?
-É que – replicou o sábio – cumpre citar aquilo de que não se compreende nada na língua que menos se entende.
O cartesiano tomou a palavra e disse :
-A alma é um espírito puro, que recebeu no ventre da mãe todas as idéias metafísicas, e que ao sair de lá, é obrigada a ir para a escola e aprender tudo de novo o que tão bem sabia e que não mais saberá !
-Então não valia a pena – retrucou o animal de oito éguas – que a tua alma fosse tão sábia no ventre de tua mãe , para ser tão ignorante quando tivesses barba no queixo. Mas que entendes por espírito ?
-Bela pergunta ! exclamou o raciocinante. – Não tenho disso a mínima idéia : dizem que não é matéria.
-Mas sabes ao menos o que é matéria ?
-Perfeitamente – respondeu o homem. – Por exemplo , esta pedra é cinzenta, e de determinada forma, tem as suas três dimensões, é pesada e divisível.
-Pois bem – disse o siriano-, e essa coisa que te parece divisível, pezada e cinzenta, saberá dizer-me exatamente o que seja ? Tu lhe vês alguns atributos; mas no fundo da coisa, acaso o conheces ?
-Não disse o outro.
-Não sabes, pois, o que é a matéria.
Então o Senhor Micrômegas, dirigindo a palavra ao outro sábio, a quem equilibrava sobre o polegar, perguntou-lhe o que era a sua alma, e o que fazia.
-Absolutamente nada – respondeu o filósofo malebranchista – é, Deus que faz tudo por mim; vejo tudo em Deus, faço tudo em Deus; é Ele quem faz tudo, sem que eu me preocupe.
-É o mesmo que não existisses – tornou o sábio de Sírio. – E tu, meu amigo – disse a um leibniziano que ali se achava-, quem vem a ser a tua alma ?
-É – respondeu o libniziano – um ponteiro que indica as horas, enquanto o meu corpo toca o carrilhão; ou , se quiserdes, é ela quem carrilhona, enquanto o meu corpo marca a hora; ou então, é minha alma o espelho do universo, e meu corpo a moldura do espelho : isso é bem claro.
Um minúsculo partidário de Locke achava-se ali perto; e quando afinal lhe dirigiram a palavra :
-Eu não sei o que penso – respondeu -, mas sei que nunca pude pensar senão com o auxílio dos meus sentidos. Que haja substâncias imateriais e inteligentes, eu disso não duvido; mas também não nego que deus possa comunicar pensamento à matéria. Venero o poder eterno, não me cabe limitá-lo; nada afirmo, contento-me em acreditar que há mais coisas possíveis do que se pensa.
O animal de Sírio sorriu : não achou que fosse aquele o menos sábio; e o anão de Saturno teria abraçado o sectário de Locke, senão fora à extrema desproporção entre ambos. Mas, por desgraça, havia ali um animálculo de capelo que cortou a palavra de todos os animálculos filosofantes : disse que sabia o segredo de tudo, o qual se achava na suma de Santo Tomás ; mediu de alto a baixo os dois habitantes celestes; sustentou-lhes que as suas pessoas , os seus mundos, sóis e estrelas, tudo era feito unicamente para o homem. A isto, os nossos dois viajantes tombaram um nos braços dos outro, sufocados de riso, esse riso inextinguível que, segundo Homero, é próprio dos deuses; seus ombros e ventres agitavam-se, e, nessas convulsões , o navio que Micrômegas trazia na unha caiu nos bolsos da calça do saturniano. Os dois o procuraram por muito tempo; afinal encontraram e reajustaram tudo convenientemente. O siriano retomou os pequenos insetos; falou-lhes de novo com muita bondade, embora no íntimo se achasse um tanto agastado de ver que os infinitamente pequenos tivessem um orgulho quase infinitamente grande. Prometeu-lhes que redigiria um belo livro de filosofia, escrito bem miudinho, para seu uso, e que nesse livro, veriam eles o fim de todas as coisas. Com efeito, entregou-lhes esse livro, que foi levado para a Academia de Ciências de Paris. Mas, quando o secretário o abriu, viu apenas um livro em branco. – Ah ! bem que eu desconfiava...-disse ele.

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Quarta-feira, Maio 21, 2003

Penúltima Parte
Parte VI - Do que lhes aconteceu com os homens

Micrômegas, melhor observador que o anão, viu claramente que os átomos se falavam; e fê-lo notar ao companheiro, que, envergonhado do seu engano quanto à geração, não quis acreditar que tal espécie pudesse trocar idéias. Tinha o dom das línguas, como o siriano; não ouvia nossos átomos falarem, e supunha que não falavam. Aliás, como poderiam aquelas criaturas imperceptíveis possuir os órgãos da voz, e que teriam a dizer-se? Para falar, é preciso pensar, ou quase : mas, se pensavam, tinham então o equivalente a uma alma. Ora, atribuir um equivalente de alma a uma espécie daquelas parecia-lhe absurdo.
-Mas – observou Micrômegas – ainda há pouco supunhas que praticavam o amor. Será que julgas que se possa praticar o amor sem pensar e sem proferir alguma palavra, ou pelo menos sem se fazer compreender ? Achas, aliás, que seja mais difícil um raciocínio que fazer um filho ? Quanto a mim, um e outro me parecem grandes mistérios.
-Já não ouso nem crer nem negar – disse o homúnculo -, não tenho mais opinião. Tratemos primeiro de examinar esses insetos, arrazoaremos depois.
-Muito bem dito – retrucou Micrômegas. Em seguida tirou do bolso uma tesourinha, com que cortou as unhas, e, com uma lasca da unha do polegar, fabricou uma espécie de trompa acústica, que era como um vasto funil cujo bico aplicou no ouvido. A boca do funil envolvia o navio e toda a equipagem. A voz mais fraca penetrava nas fibras circulares da unha, de modo que, graças à sua indústria, pôde o filósofo lá do alto ouvir perfeitamente o zumbido dos insetos cá de baixo. Em poucas horas, conseguiu distinguir as palavras, e afinal compreender o francês. O anão fez o mesmo, embora com mais dificuldade. O pasmo dos viajantes redobrava a cada momento. Ouviam insetos falarem com muito bom senso : esse capricho da natureza afigurava-lhes inexplicável. Bem podeis imaginar como Micrômegas e seu anão ardiam de impaciência por travar conversa com os átomos. Temiam que sua voz de trovão, e sobretudo a de Micrômegas, ensurdecesse os insetos, sem ser ouvida. Cumpria diminuir-lhe a força. Puseram na boca umas espécies de palitos cujas pontas afiladas vinham dar perto do navio. Afinal, por meio destas e de outras precauções, começou assim o seu discurso :
-Insetos invisíveis, que a mão do Criador se comprouve em brotar do abismo do infinitamente pequeno, agradeço a deus por se haver dignado desvendar-me os segredos que pareciam impenetráveis. Na minha corte, talvez não se dignem olhar-vos; mas eu não desprezo ninguém, e ofereço-vos minha proteção.
Se alguém chegou ao cúmulo do espanto, foram sem dúvida as pessoas que ouviram tais palavras. Não podiam adivinhar de onde partiam. O capelão de bordo rezou exorcismos, os marinheiros praguejavam, e os filósofos do navio elaboraram um sistema; mas, por mais sistemas que fizessem, não atinavam com quem lhes falava. O anão de saturno, que tinha a voz mais suave que a de Micrômegas, informou-lhes então com quem estavam tratando. Contou-lhes a partida de Saturno, disse-lhes quem era o Senhor Micrômegas, e , depois de os ter lamentado por serem tão pequenos, perguntou-lhes se sempre haviam estado naquela miserável condição tão vizinha do aniquilamento, o que faziam num globo que parecia pertencer às baleias, se eram felizes, se multiplicavam, se tinham uma alma, e mil outras questões dessa natureza.
Um sábio do grupo, mais audaz que os outros e chocado de que duvidassem da sua alma, observou o interlocutor por intermédio de pínulas assestadas sobre um esquadro, fez duas mitras e , na terceira , assim lhe falou :
-Julga então, senhor, só porque tem mil toesas da cabeça aos pés, que é um...
-Mil toesas ! Exclamou o anão. – Meu deus ! Como pode ele saber a minha altura ? Mil toesas ! Não se engana por uma polegada. Como ! Esse átomo mediu-me ! É geômetra, conhece as minhas dimensões; e eu, que o vejo através de um microscópio, ainda não conheço as suas.
-Sim, medi-o – disse o físico -, e medirei também o seu grande companheiro.
Aceita a proposta, deitou-se Sua Excelência ao comprido; pois , se se pusesse de pé, ficaria com a cabeça muito acima das nuvens. Os nossos filósofos plantaram-lhe uma grande árvore num lugar onde o doutor Swift nomearia, mas me guardo de chamar pelo nome, devido a meu grande respeito às damas. Depois, por uma seqüência de triângulos, concluíram que aquilo que eles viam era com efeito um jovem de cento e vinte mil pés de altura.
Micrômegas pronunciou então estas palavras :
-Reconheço, mais do que nunca, que nada devemos julgar por sua grandeza aparente. Ó deus, que destes uma inteligência a substâncias que parecem tão desprezíveis, o infinitamente pequeno vos custa tão pouco como o infinitamente grande; e , se é possível que haja seres ainda mais pequenos do que estes, podem ainda ter um espírito superior ao daqueles soberbos animais que vi no céu e cujo pé bastaria para cobrir o globo a que desci.
Respondeu-lhe um dos filósofos que ele poderia com toda a segurança acreditar que há de fato seres inteligentes muitos menores que o homem. Contou-lhe não tudo o que Virgílio diz de fabuloso sobre as abelhas, mas o que Swammerdam descobriu, e o que Réaumur dissecou. Disse-lhe, enfim, que há animais que estão para as abelhas como as abelhas estão para os homens, e como Micrômegas estava para aqueles imensos animais a que se referia, e como aqueles estão para outras substâncias , diante das quais não passam de átomos. Pouco a pouco a conversa se tornava interessante, e Micrômegas assim falou.

Aguarde a última e conclusiva parte :
Conversação com os homens – do fantástico conto Micrômegas de Voltaire



 


Segunda-feira, Maio 19, 2003

Parte V – ( Continuação do Conto Micrômegas de Voltaire )
Experiências e raciocínios dos dois viajantes

Micrômegas estendeu cuidadosamente a mão para o local onde se achava o objeto, e, avançando dois dedos e retirando-os, apanhou com todo o jeito o navio que carregava tais senhores, e colocou-o sobre a unha, sem o apertar muito, para não esmagá-lo. – Eis um animal bem diferente do primeiro – observou o anão de Saturno; o siriano pôs o pretenso animal na palma da mão. Os passageiros e o pessoal da equipagem, que se supunham erguidos por um furacão, e que se julgavam sobre uma espécie de rochedo, põem-se todos em movimento; os marinheiros apanham pipas de vinho, lançam-nas sobre as mãos de Micrômegas, e precipitam-se em seguida. Apanham os geômetras seus esquadros, seus setores, e nativas da Lapônia, e saltam para a mão de Micrômegas. Tanto fizeram, que este sentiu enfim mover-se qualquer coisa que lhe comichava os dedos; era um bastão ferrado que lhe fincavam no índice; julgou, por aquilo, que saíra qualquer coisa do pequeno animal que ele segurava. Mas não desconfiou de mais nada. O microscópio que mal fazia discernir uma baleia e um navio , não alcançava seres tão imperceptíveis como os homens. Não pretendo chocar a vaidade de ninguém , mas sou obrigado a pedir às pessoas importantes que façam uma pequena observação comigo : é que, considerando a homens cerca de cinco pés de altura , não fazemos, à face da Terra, maior figura do que faria, sobre uma bola de dez pés de circunferência, um animal que medisse a sexcentésima milésima parte de uma polegada. Imaginai uma substância que pudesse sustentar a Terra na mão, e que tivesse órgãos em proporção com os nossos ( e bem pode acontecer que haja grande número dessas substâncias ) : concebei , então, o que haveriam de pensar dessas batalhas que nos valeram duas aldeias que foi preciso restituir.
Se algum capitão de granadeiros ler algum dia esta obra, não duvido que mandem aumentar, pelo menos dois pés, os capacetes da sua tropa, mas fica avisado de que, por mais que faça, nunca passarão, ele e os seus , de infinitamente pequenos.
Que maravilhosa habilidade não foi preciso ao nosso filósofo de Sírio para perceber os átomos que acabo de falar ! Quando Leuwenhoek e Hartsoeker viram pela primeira vez , ou julgaram ver, a semente de que nos formamos, não fizeram tão espantosa descoberta. Que prazer não sentiu Micrômegas ao ver se moverem àquelas pequenas máquinas, examinando-lhes todos os movimentos, seguindo-as em todas as operações ! Que de exclamações ! Com que alegria pôs um de seus microscópios nas mãos do companheiro de viagem ! – Veja-os ! – diziam ambos ao mesmo tempo. – Assim falando, tremiam-lhes as mãos, pelo prazer de ver os objetos tão novos e pelo receio de os perder. O saturniano, passando de um excesso de confiança a um excesso de credulidade, julgou perceber que eles trabalhavam na propagação da espécie. Ah ! – dizia ele – peguei a natureza em flagrante. – Mas enganava-se pelas aparências, o que muita vez sucede, quer a gente se sirva ou não de microscópios.

Aguarde as últimas partes
VI - Do que lhes aconteceu com os homens
E
VII – Conversação com os homens




 


Sexta-feira, Maio 16, 2003

Parte IV ( Continuação do conto Micrômegas de Voltaire )

Do que lhes sucede sobre a face da Terra


Depois de terem repousado um pouco, almoçaram duas montanhas, que os criados lhe prepararam a capricho. Desejavam em seguida fazer um reconhecimento pelo pequeno país onde se achavam . Caminharam a princípio de norte a sul. Os passos ordinários do siriano e do seu pessoal eram de trinta mil pés aproximadamente; o anão de saturno seguia de longe, arquejando; ora era preciso que ele corresse uns doze passos enquanto o outro dava uma pernada : imaginai ( se é permitido tal comparação ) um pequeno cãozinho fraldiqueiro que acompanhasse um capitão da guarda do rei da Prússia.
Como os dois estrangeiros andassem muito depressa, deram a volta ao mundo em trinta e seis horas ; o Sol, na verdade, ou antes, a Terra, faz igual viagem num dia ; mas cumpre levar em conta que é mais cômodo girar sobre o próprio eixo do que andar com um pé depois do outro. Ei-los pois de volta ao ponto de partida, depois de terem visto este pântano, pequeno charco que, sob o nome de Grande Oceano, contorna o formigueiro. A água nunca passara além das canelas do anão, ao passo que o outro apenas molhara os calcanhares. Fizeram tudo o que puderam, andando em todas as direções, para descobrir se este globo era habitado ou não. Agacharam-se , deitaram-se, apalparam por toda à parte, mas como seus olhos e mãos não eram proporcionais aos pequenos seres que por aqui arrastam, não receberam a mínima sensação que lhe fizesse suspeitar que nós, e os demais confrades habitantes deste globo, tivéssemos a honra de existir.
O anão, que às vezes raciocinava muito apressadamente, concluiu a princípio que não havia habitantes na Terra. Seu primeiro argumento era de que não vira ninguém. Micrômegas, polidamente, fez-lhe sentir que ele não raciocinava muito bem :
Como não distingues, com teus pequenos olhos, certas estrelas de qüinquagésima grandeza que eu percebo distintamente, concluís daí que estas estrelas não existem ?
-Mas – replicou o anão – eu apalpei bem.
-Mas sentiste mal – respondeu o outro.
-Mas este globo é tão mal construído – objetou o anão –, é tudo tão irregular e de uma forma que me parece tão ridícula ! Tudo parece aqui um pleno caos : não vês estes pequenos arroios que jamais correm em linha reta, estes charcos que não são redondos, nem quadrados, nem ovais, nem de nenhuma forma regular; e todos esses grãozinhos pontiagudos de que está eriçado este globo e que me arranharam os pés ? ( Queira referir-se às montanhas .) Repara ainda na forma de todo o globo, como é achatado nos pólos, e sua maneira inadequada de girar em torno do sol, de modo que a região dos pólos fica necessariamente estéril ? Em verdade o que me faz pensar que não haja aqui ninguém é que gente de bom senso não moraria em um lugar como este.
-Pois bem – disse Micrômegas -,talvez os que habitam não sejam gente de bom senso. Mas há probabilidades que isto não tenha sido feito inutilmente. Tudo aqui parece irregular porque em Saturno e Júpiter é tudo feito à régua e compasso. Exatamente por esse motivo é que há aqui um pouco de confusão. Não lhe disse que eu nas minhas viagens sempre encontrei variedade ?
O saturniano replicou a todas essas razões. E a questão jamais terminaria se, por felicidade, Micrômegas, no calor da discussão, não tivesse rompido o seu colar de diamantes. Estes caíram ao chão. Eram lindas pedras de tamanho variado, tendo as mais volumosas quatrocentas libras de peso, e as menores cinqüenta. O anão apanhou algumas; ao aproximá-las dos olhos, viu que, da maneira como estavam lapidadas, constituíam excelentes microscópios. Tomou, pois, um pequeno microscópio de cento e sessenta pés de diâmetro, que aplicou à pupila; e Micrômegas escolheu uma de mil e quinhentos pés. Eram excelentes; mas, no princípio, nada perceberam com o seu auxílio : era preciso adaptarem-se. Afinal, o habitante de Saturno viu qualquer coisa quase imperceptível que se movia à superfície do mar Báltico : era uma baleia. Pegou-as habilmente com o dedo mínimo e, colocando-a sobre a unha do polegar, mostrou-a a Micrômegas, que se pôs a rir da excessiva pequenez dos habitantes do nosso globo. O saturniano, convencido de que nosso mundo é habitado, imaginou logo que só era por baleias; e como era um grande logicista, quis logo adivinhar de onde um átomo tão pequeno tirava seu movimento, e se tinha idéias, vontade, liberdade. Micrômegas sentiu-se muito embaraçado : examinou o animal com infinita paciência, e o resultado da análise foi que era quase impossível acreditar que ali se alojasse uma alma. Estavam, pois , os dois viajantes inclinados a pensar que não há espírito em nosso mundo, quando, com o auxílio do microscópio , perceberam algo de mais grosso que uma baleia e que flutuava sobre as águas. Sabe-se que , por aquela época, um bando de filósofos regressava do círculo polar, onde tinham ido fazer observações que a ninguém havia ocorrido até então. Disseram as gazetas que seu navio naufragou nas costas da Bótnia e que tiveram grande dificuldade em salvar-se; mas neste mundo nunca se sabe o reverso das cartas. Vou contar ingenuamente como se passaram às coisas, sem nada acrescentar por conta própria, o que não é pequeno esforço para um historiador.

Continua na próxima parte : Experiência e raciocínios dos dois viajantes



 


Quarta-feira, Maio 14, 2003

Parte III - ( Continuação do Conto Micrômegas de Voltaire )

Viagem dos dois habitantes de Sírio e de Saturno


Estavam os nossos dos filósofos prestes a embarcar na atmosfera de Saturno, com uma bela provisão de instrumentos matemáticos, quando a amante do saturniano, ao saber disso, veio queixar-se em pranto. Era uma linda moreninha que tinha apenas seiscentas toesas, mas que compensava com vários encantos a pequenez de seu talhe.
-Ah, cruel ! – chamava ela. – Depois de te haver resistido durante mil e quinhentos anos, quando enfim começa a render-me, quando apenas passei cem anos em teus braços, tu me deixas para ir viajar com um gigante de outro mundo ! Vai, não passas de um curioso , nunca tiveste amor : se fosses um verdadeiro saturniano , serias fiel. Por onde vais correr ? Que queres ? As nossas cinco luas são menos errantes que tu, o nosso anel é menos mutável. Pronto ! Nunca mais amarei ninguém.
O filósofo, por mais que o fosse, beijou-a, chorou com ela, e a dama, depois de haver desmaiado, foi consolar-se com um peralvilho do país.
Os nossos dois curiosos partiram; saltaram primeiro sobre o anel, que acharam bastante chato, como bem o adivinhou um ilustre habitante do nosso pequeno globo, seguiram depois, de lua em lua. Como um cometa viesse a passar mais próximo da última, lançaram-se sobre ele, com todos os seus criados e instrumentos. Depois de terem coberto cerca de cento e cinqüenta milhões de léguas, toparam com os satélites de Júpiter. Nesse planeta demoraram-se um ano inteiro, durante o qual descobriram belos segredos, que estariam agora em vias de publicação se não fossem os senhores inquisidores, que acharam algumas proposições um pouco fortes. Mas li o manuscrito na biblioteca do ilustre arcebispo de *** , que me deixou examinar seus livros, com uma generosidade e benevolência nunca assaz louvadas.
Mas voltemos aos nossos viajantes. Deixando Júpiter , atravessaram um espaço de cerca de cem milhões de léguas, e passaram pelo planeta Marte, que, como se sabe, é cinco vezes menor do que o nosso pequeno globo; viram as duas luas que servem a este planeta e que escaparam às vistas de nossos astrônomos. Bem sei que o Padre Castel escreverá, e até com muito espírito, contra a existência destas duas luas, mas reporto-me àqueles que raciocinam por analogia. Sabem bem esses filósofos o quanto seria ao planeta Marte, que fica tão longe do Sol, não dispor ao menos de um par de luas. Seja como for, o caso é que nossos camaradas o acharam tão pequeno, que recearam não encontrar pousada, e seguiram adiante, como dois viajantes que desdenham um mau albergue de aldeia e prosseguem até a cidade vizinha. Mas o siriano e o companheiro logo se arrependeram disso. Viajaram por muito tempo , sem encontrar coisa alguma. Afinal divisaram um pequeno clarão; era a Terra; coisa de causar piedade à gente que vinha de Júpiter. No entanto, com medo de se arrependerem pela segunda vez, resolveram desembarcar aqui mesmo. Passaram para a cauda do cometa e , achando uma aurora boreal adrede, bela se meteram, e chegaram à Terra pelo norte do mar Báltico, a 5 de Julho de 1737.

Aguardem a próxima parte ( do que lhes sucede sobre a face da Terra )




 


Terça-feira, Maio 13, 2003


Parte II – ( Continuação do conto Micrômegas de Voltaire )

Conversação do Habitante de Sírio com o de Saturno


Depois que Sua Excelência se deitou, o secretário aproximou-se de seu rosto :
-Tem-se de confessar – disse Micrômegas – que a natureza é bastante variada.
-Sim – disse o saturniano - ,a natureza é como um canteiro cujas flores...
-Ah ! – exclama o outro. – Deixe o canteiro em paz.
-Ela é – tornou o secretário – como uma assembléia de loiras e morenas cujos
adornos...
-Que tenho eu a ver com suas morenas ?
-É então como uma galeria de pintura cujos traços...
-Ora ! – atalha o viajante. – De uma vez por todas : a natureza é como a natureza. Para que buscar-lhe comparações ?
-Para ser agradável ao Senhor – respondeu o secretário.
-Eu não quero que me agradem – retrucou o viajante. – Quero que me instruam. Comece por dizer quantos sentidos têm os homens do seu globo.
-Temos setenta e dois – disse o acadêmico. – E todos os dias nos queixamos de tão pouco. A nossa imaginação vai além de nossas necessidades; achamos que , com os nossos setenta e dois sentidos , o nosso anel, as nossas cinco luas, somos muito limitados; e , apesar de toda a nossa curiosidade e do considerável número de paixões que resultam dos nossos setenta e dois sentidos , ainda temos tempo de sobra para nos aborrecermos.
-Não duvido – disse Micrômegas -, pois no nosso globo temos cerca de mil sentidos, e resta-nos ainda não sei que vago desejo, não sei que inquietação, que incessantemente nos adverte do pouco que nós somos e de que existem seres muito mais perfeitos. Tenho viajado um pouco; vi mortais muito abaixo de nós; vi-os muito superiores; mas a nenhum vi que não tivesse mais desejos que verdadeiras necessidades , e mais necessidades que satisfação. Talvez chegue um dia ao país onde não falta nada; mas desse país até agora ninguém me deu notícias.
O saturniano e o siriano alongaram-se então em conjecturas ; mas depois de muitos raciocínios tão engenhosos quão incertos, foi preciso voltar aos fatos.
-Quanto tempo vivem vocês ? indagou o siriano.
-Ah ! pouquíssimo – replicou o homenzinho de saturno.
-Exatamente como entre nós – disse o siriano; vivemos sempre a queixar-nos do pouco. Deve ser uma lei universal da natureza.
-Ai ! Suspirou o saturniano. – Vivemos apenas quinhentas grandes revoluções do sol ( o que pela nossa maneira de contar, dá aproximadamente quinze mil anos). Bem se vê que é quase o mesmo que morrer no momento em que se nasce; a nossa existência é um ponto, a nossa duração um instante, o nosso globo um átomo. Apenas começa a gente a instruir-se um pouco, quando chega a morte, antes que se tenha adquirido uma gota de água em um oceano imenso. Sinto-me envergonhado, principalmente diante do senhor, da figura ridícula que faço neste mundo.
-Se o amigo não fosse filósofo – respondeu Micrômegas - , eu temeria afligi-lo dizendo que a nossa vida é setenta vezes mais longa que a sua. Mas bem sabe que, quando nos cumpre devolver o corpo aos elementos e reanimar a natureza sob outra forma ( que é o que se chama morrer ) , quando é chegado esse instante de metamorfose, ter vivido uma eternidade, ou um dia, é precisamente a mesma coisa. Estive em países onde se vivia mil vezes mais tempo do que no meu, e vi que ainda se queixavam. Mas há por toda parte gente de bom senso, que sabe tomar o seu partido e agradecer ao autor da natureza ( caso você acredite nele ). Expandiu ele por este universo uma profusão infinita de variedades , com uma admirável espécie de uniformidade. Por exemplo, todos os seres pensantes são diferentes, e todos se assemelham no fundo, pelo dom do pensamento e dos desejos. A matéria está por toda à parte, mas tem em cada globo propriedades diversas. Quantas dessas propriedades contam os senhores na matéria ?
-Se se refere – disse o saturniano – a essas propriedades sem quais julgamos que este globo não poderia subsistir tal como é, contamos trezentas, como a extensão, a impenetrabilidades, a mobilidade, a gravitação, a divisibilidade, e o resto.
-Aparentemente – replicou o viajante -, basta esse pequeno número para os objetivos de Gaia quanto à vossa pequena habitação. Em tudo admiro a sua sabedoria; vejo por toda parte diferenças; mas também proporções por toda à parte. Pequeno é o vosso globo, vossos habitantes também o são; tendes poucas sensações; vossa matéria tem poucas propriedades : tudo isso é obra da providência. De que cor é verdadeiramente vosso Sol ?
- De um branco bastante amarelo – disse o saturniano. – E, quando dividimos um de seus raios, vemos que contém sete cores.
-O nosso Sol tende para o vermelho – disse o siriano - , e temos trinta e nove cores primitivas. Dentre os sóis de que me aproximei , não há dois que se assemelhem, como não há entre vós um rosto que não seja diferente dos outros.
Após várias perguntas dessa natureza, indagou quantas substâncias essencialmente diferentes se contavam em saturno. Soube que não havia mais que umas trinta, como deuses, o espaço, a matéria, os seres extensos que sentem e pensam, os seres pensantes que não têm extensão, os que se penetram, os que não se penetram, e o resto. O siriano, em cuja pátria se contavam trezentas, e que descobrira três mil outras em suas viagens, deixou o filósofo de Saturno prodigiosamente espantado. Afinal, depois de haverem comunicado um ao outro um pouco do que sabiam e muito do que não sabiam, depois de haverem trocado idéias durante uma revolução do sol, resolveram fazer juntos uma pequena viagem filosófica.

Continuará...aguardem a parte III ( Viagem dos dois habitantes de sírio e saturno )




 


Quinta-feira, Maio 01, 2003

Depois que o Alam deu o toque da observação astronômica no IAG, lembrei-me de um conto que li há uns 3 anos atrás. É um conto do Voltaire, inspirado nas Viagens de Gulliver, de Swift.
Tem algumas viagens físicas, improváveis ou impossíveis, ( considerando a ciência da época, ele está perdoado ! ) mas vale a moral da história.
Lá vai...

A TOCA DO CÃO ORGULHOSAMENTE APRESENTA UM CONTO FILOSÓFICO DE VOLTAIRE - MICRÔMEGAS

Viagem de um habitante da estrela Sírio ao planeta Saturno

(Parte I )
Num dessas planetas que giram em torno da estrela chamada Sírio, havia um jovem de muito espírito a quem tive a honra de conhecer a última viagem que fez a este planeta formigueiro : chamava-se Micrômegas, nome bastante adequado a todos os grandes. Tinha oito léguas, vinte quatro mil passos geométricos de cinco pés cada um.
Alguns algebristas, gente sempre muito útil ao público, tomaram logo da pena e, tendo em vista que o Senhor Micrômegas, habitante do país de Sírio, tem da cabeça aos pés vinte e quatro mil passos, ou seja, vinte mil pés, e que nós outros, cidadãos da terra, não medimos mais do que cinco pés de altura e o nosso globo 9 mil léguas de circunferência , esses algebristas, dizia eu, calcularão que é preciso, absolutamente que o globo que o produziu seja exatamente vinte e um milhão de vezes maior que a nossa minúscula Terra. Nada mais simples nem mais comum na natureza. Os estados de alguns soberanos da Alemanha ou da Itália, cuja volta se pode fazer em meia hora , comparados ao império da Turquia, da Moscóvia ou da China, mão são mais do que uma débil imagem das prodigiosas diferenças que a natureza colocou em todos os seres.
Sendo sua Excelência da altura que eu disse, todos os nossos escultores e pintores convirão sem dificuldade em que a cintura pode medir cinqüenta mil pés, o que constitui uma bela proporção.
Quanto ao seu espírito, é um dos mais cultivados que existem;sabe muitas coisas e inventou algumas outras : não tinha ainda duzentos e cinqüenta anos e estudava, só pela força do seu espírito, mais de cinqüenta proposições de Euclides – isto é, dezoito mais que Blaise Pascal, o qual , depois de ter adivinhado trinta e duas , por brincadeira, pelo que dizia sua irmã, tornou-se mais tarde um geômetra bastante medíocre e um péssimo metafísico. Lá pelos seus quatrocentos e cinqüenta anos , ao sair da infância, dissecou muitos desses pequenos insetos que têm apenas cem pés de diâmetro e que se furtam aos microscópios ordinários; compôs sobre a matéria um livro bastante curioso, mas que lhe valeu algumas contrariedades. O mulfi de seu país , sujeito esmiuçador e ignorantíssimo, achou nos seus livros proporções suspeitas, malsoantes, temerárias, heréticas, que cheiravam a heresia, e perseguiu-o sem tréguas : tratava-se de saber se a forma substancial das pulgas de Sírio era a mesma que a dos caracóis. Micrômegas defendeu-se com espírito; pôs as mulheres a seu favor; o processo durou duzentos e vinte anos. Afinal o multi fez com que o livro fosse condenado por jurisconsultos que não o haviam lido, e o autor teve ordem de não aparecer na corte durante oitocentos anos.
Pouco se afligiu ele de ser bandido de uma corte onde só havia intrigas e mesquinharias. Compôs uma canção muito divertida contra o mulfi; a que este não deu importância; e pôs-se a viajar de planeta em planeta, para acabar de formar o espírito e o coração, como se diz. Os que só viajam de cadeira de posta e berlinda ficarão decerto espantados com as equipagens de lá; pois nós, em nossa pequena bola de lama, nada concebemos além de nossos usos. O nosso viajante conhecia às maravilhas as leis da gravitação e todas as forças atrativas e repulsivas. Utilizava-as tão a propósito que, por intermédio de um raio de Sol, ou graças à comodidade de um cometa , ia de globo em globo , ele e os seus, como um pássaro voeja de ramo em ramo. Em pouco percorreu a Via-Láctea; e sou obrigado a confessar que nunca viu, em meio às estrelas de que é semeada, este belo céu empírico que o ilustre vigário Derhan se gaba de ter enxergado na ponta de sua luneta. Não que eu pretenda alegar que o Senhor Derhan tenha visto mal. Deus me livre ! Mas Micrômegas este no local, é um bom observador, e eu não quero contradizer ninguém. Micrômegas, depois de muitas voltas, chegou ao globo de Saturno. Por mais acostumado que estivesse a ver coisas novas, não pôde ante a pequenez do globo e seus habitantes, evitar esse sorriso de superioridade que às vezes escapa aos mais sábios. Pois afinal Saturno não é mais que novecentas vezes maior que a Terra, e os seus cidadãos não passam de anões que têm apenas umas mil toesas de altura. A princípio, zombou ele um pouco com a sua gente, mais ou menos como um músico italiano se pões a rir das músicas de Lulli, quando chega na França. Mas o siriano, que tinha o espírito justo, compreendeu que uma criatura pensante poderia muito bem não ser ridícula só por ter seis mil pés de altura. Familiarizou-se com os saturnianos, depois de os haver espantado. Ligou-se de estreita amizade com o secretário da Academia de Saturno, homem de muito espírito, que na verdade fazia passavelmente pequenos versos e grandes cálculos. Transcreverei aqui para a satisfação dos leitores, uma singular conversação que Micrômegas teve um dia com o senhor secretario.

...aguardem a próxima parte...



 


Terça-feira, Abril 29, 2003

Em homenagem a mulher amada.

FASCINAÇÃO

A vez primeira que te ouvi dos lábios
Uma singela e doce confissão,
E que travadas nossas mãos, eu pude
Ouvir bater teu casto coração,

Menos senti do que senti na hora
Em que, humilde – curvado ao teu poder,
Minha ventura e minha desventura
Pude, senhora, nos teus lábios ler.

Então, como por vínculo secreto,
Tanto no teu amor me confundi,
Que um sono puro me tomou da vida
E ao teu olhar, senhora, adormeci.

É que os olhos, melhor que os lábios, falam
Verbo sem som, à alma que é de luz
-Ante a fraqueza da palavra humana –
O que é de mais divino o olhar traduz.

Por ti, nessa união íntima e santa,
Como a um toque de graça do Senhor,
Ergui minh’alma que dormiu nas trevas,
E me sagrei na luz do teu amor.

Quando tua voz puríssima – dos lábios,
De teus lábios já trêmulos correu,
Foi alçar-me o espírito encantado
Que abrindo as asas demandara o céu.

De tanta embriaguez, de tanto sonho
Que nos resta ? Que vida nos ficou ?
Uma triste e vivíssima saudade...
Essa ao menos o tempo não levou.

Mas se é certo que a baça mão da morte
A outra vida nos levará,
Em Deus, minh’alma adormeceu contigo,
Em Deus, contigo um dia acordará.

Machado de Assis – Fascinação - 1 de janeiro de 1863

Wilton D.C. - O porta voz do cão cérbero.




 


Sexta-feira, Abril 04, 2003

O NASCER DE UM AMOR

Dedico este poema para a minha companheira, amiga, e amor, Priscila.
O Nascer de um grande amor. Como as coisas foram,, como são, e como serão.

A câmara da torre está apagada.
Mas eles iluminam seus rostos com sorrisos.
Tateiam diante de si como cegos e encontram
o outro como uma porta. Quase como uma crianças
assustadas diante da noite, apertam-se um
ao outro. No entanto nada temem. Não há
nada contra eles : nenhum ontem e nenhum
amanhã, pois o tempo se desmoronou. E eles
florescem das suas próprias ruínas. Ele não
pergunta : "Teu marido ? "
Ela não pergunta : "Teu nome ? "
Encontram-se, na verdade, para serem um para
o outro, uma nova estirpe.
Darão um ao outro cem novos nomes, e
tornarão a tirá-los todos, um do outro, de leve,
como se tira um brinco de uma orelha.

Rainer Maria Rilke - A canção de amor e de morte do porta-estandarte Cristóvão Rilke.

PARABÉNS !!!!!!!!!!!!

Aí, cara ! Parabéns pelo seu aniversário ! Sr. Rodrigo Carvalho Leme !
Que o dia de hoje, seja melhor que o dia de ontem, pois diferente do ontem, o hoje é a nobre comemoração dos nossos desaniversários !
Divirta-se sempre na vida !

Do seu amigo,

Wilton D.C.




 



Cantinho do coração :

Agradeço a Priscila por tanto amor e dedicação a mim, e por aceitar o Wilton como ele é...doidão, ao mesmo tempo, reflexivo, individualista, mas também cosmopolita e aberto a nosvas experiências...menos as anais, claro.
Agradeço ao James, por ser meu amigo fiel, e inquestionável nos últimos 8 anos.
Agradeço à Família Andrada, também.
Ao Rodrigo, por ser um cara tão sincero e único no mundo. É pau prá toda obra também. Valeu pelo design do blog.
A Giu, por ser mais doida do que eu.
À Galera do IF USP, por terem me ensinado tantas coisas nos anos em que passei lá.
Em especial a Rose, Matheus, Alam, Fernanda, Boro ! ( Foram muito importantes pro Wil tb ! )
Aos músicos que tocaram comigo, em especial ao Rodrigo batera, e ao Duda Baixista, que me ensinaram coisas prá caracas também.
Aos meus professores Marcello Jaffé, Ulisses Rocha, Silvio Santisteban, Lanny Gordin, Rurion,Bangla, Thomas Rohrer e atualmente o Arrigo, que fizeram e fazem de mim o que sou.
Aos meus amigos da aolescência, Fábio e Robson, que não sei mais por onde andam, mas fizeram uma adolescência divertida e explosiva juntos de mim.
As minhas ex-namoradas, pois todas contribuiram para eu me tornar um homem menos machão, mais feminino e sensível.
Papai e mamãe, e a mana também. Grande Trio !
Tem muito mais gente...mas não quero bater o record de melação na internet...mas sou muito grato a todos vcs por fazerem parte da minha vida !
Beijos a todos

wilton d.c.

Aproveitem o momento histórico, porque nunca mais farei isso ! MAS FOI DO CORAÇÃO !
Eu amo vcs !



 


Quarta-feira, Abril 02, 2003

A FALA

As crianças riem no esplendor das frutas, Vina,
o sol é alegre.
Esta estrada, esta estrada de terra
onde as velhas sem teto se transformam em aves. O sol
é alegre.
Fala-me da ciência. O hálito maduro
em que as folhas crescem donas da sua morte.

Vina, as hortaliças não falam. Me curvo sobre nós
e as minhas asas tocam o teto.
Aonde não chega o amor e o sábado é mais pobre,
lá ciscamos entre séculos.
Os meus olhos, sábios, sorriem-me de entre as pedras.
Prossegue, eu te escuto, chão, usar a minha língua.
Vejo os teus dentes e o seu brilho. A terra, dizes,
a terra. Prossegue.

Falemos alto. Os peixes ignoram as estações e nadam.
Nós, caminhamos entre as árvores. Quando é verão, os druidas,
curvados, recolhem as ervas novas.
Falemos alto,
os milagres são poucos.
As águas refletem os cabelos, as blusas dos viajantes.
Os risos, claros , detrás do ar. Os pássaros voam em silêncio.
Não te posso dizer : "vamos" - senão por aqui.
A infância dentro da luz dum musgo que os bichos
comem com a sua boca.
Eu ouço o mar; sopro, caminho na folhagem.
Mirar-nos límpidos no susto das águas escondidas ! ,
a alegria debaixo das palavras.


O culto do sol perdeu os homens; os restos de suas asas
rolam nestas estradas por onde vamos ainda.
Aqui é o chão, o nosso. No alto ar as esfinges sorriem.
Seus vastos pés de pedra, entre as flores.

Sopra, velho sopro de fé, vento das épocas
comedor de alfabetos, come o perfil dos mitos, vento
grande rato do ar eriçado de fomes,
galopa.


Esta linguagem não canta e não voa,
não voa,
o brilho baixo;
filha deste chão, vento que dele se ergue
em suas asas de terra.
Aqui, a pouca luz,
ganha a um sol fechado, soluça.

Sopra no coração o sol das folhas, Vina,
é verão nas minhas palavras.

Maduras, movem-se
as águas, fervilhando de rostos.
E me iluminam um lado no silêncio
para onde as cousas estão extremamente voltadas.
O teu mais velho canto,
arrastado com sol, varrido
no coração das épocas,
eu o recolho,. agora, de entre as pedras, queimando.

Tua boca, real,
clareia os campos que perdemos.
Eu jazo detrás da casa, aonde ninguém vai
( onde a mitologia sopra, perdida dos homens ,
entre flores pobres ).

Fora , é o jardim, o sol - o nosso reino.
Sob a fresca linguagem, porém,
dentro de suas folhas mais fechadas,
a cabeça, os chavelhos reais de lúcifer,
esse diurno.

Assim é o trabalho. Onde a luz da paloavra
torna a sua fonte,
detrás do amor,
ergue-se para a morte, o rosto.

Ferreira Gullar.


 


Terça-feira, Abril 01, 2003

"Eu era rígida e fria, eu era uma ponte, sobre um abismo eu jazia. Do lado de cá estavam as pontas dos pés, do lado de lá as mãos encravadas, na lama inconsistente meus dentes aferrei. As abas de meu casacão flutuavam dos meus lados. Nas profundezas murmurejava o gélido regato de trutas. Nenhum turista errava por estas inviáveis alturas, a ponte não estava ainda registrada nos mapas. - Assim eu jazia e esperava; eu tinha de esperar. Sem ter desmoronado, nenhuma ponte um dia erigida consegue deixar de ser ponte.
Uma vez, por volta do anoitecer - era a primeira vez, era a milésima, não sei - meus pensamentos andavam sempre de lá e para cá, e sempre em círculos. Por volta do anoitecer de um dia de verão, mais sombrio ressoava o riacho, súbitos passos de um homem escutei ! Na minha direção, na minha direção.
-Estende-te, ponte, coloca-te em posição; viga sem balaústre, sustenta o que te foi confiado. Sem que se note , trata de compensar e equilibrar a insegurança do seu passo, mas , se ele vacilar, dá-te então a conhecer e. como um deus da montanha, projeta-o em terra.
Ele chegou, e com a ponte de ferro de seu bordão me ascultou; em seguida ergueu com ele as abas de meu casaco, colocando-as ordenadamente em cima de mim . Meu cabelo desalinhado ele percorreu com a ponte, e, provavelmente olhando de modo selvagem ao redor, deixou-a por longo tempo enfiada dentro dele. Mas depois - eu já sonhava por montes e vales além - ele me pulou com os dois pés bem no meio do meu corpo. Em selvagem dor estarreci, completamente sem saber, toda inocente. Quem era ? Uma criança ? Um sonho ? Um salteador ? Um suicida ? Um tentador ? Um aniquilador ? E eu me voltei e virei para vê-lo. - Uma ponte a se revolver. E nem sequer havia ainda me voltado toda e já ia despencando então, despencando, já ia sendo escangalhada e empalada pelos pedregulhos pontudos, que sempre me haviam olhado com tanta cordialidade lá da água a correr. "

Franz Kafka - A Ponte



 


Terça-feira, Março 18, 2003

Aqui Haverá Tigres – Parte V

O foguete subiu pelo céu. Olhando para trás, Forester viu todos os lagos e todos os vales.
-Deveríamos ter ficado – falou Koestler.
-Sim, eu sei.
-Ainda podemos voltar.
-Receio que não – Forester ajustou o telescópio. – Olhe agora.
Koestler olhou.
A fisionomia daquele mundo havia mudado. Tigres, dinossauros, mamutes, apareceram. Vulcões em erupção, ciclones, furacões, cortavam as colinas na comoção e na fúria dos elementos.
-Sim, era mesmo uma mulher – comentou Forester. – Esperando visitantes por milhões de anos, preparando-se, embelezando-se. Mostrou o que tinha de melhor para nós. Quando Chatterton a maltratou, avisou-o algumas vezes, e então, quando ele tentou arruinar sua beleza, eliminou-o. Ela queria ser amada, como toda mulher, por si mesma, não por suas riquezas. Assim depois de nos ter oferecido tudo voltamo-lhe as costas. É a mulher desprezada. Deixa-nos ir, mas nunca mais poderemos voltar. Estará nos esperando com “aquilo”...E apontou para os tigres e ciclones e os mares fervilhantes.
-Capitão – falou Koestler.
-Sim.
-É um pouco tarde para dizer agora, mas logo antes de decolarmos, eu estava encarregado da porta. Deixei Driscoll evadir-se da nave. Ele queria ir. Não podia negar-lhe. Sou o responsável. Ele está lá agora, naquele planeta.
Ambos foram à escotilha de observação.
Depois de um bom tempo, Forester disse : - Estou contente por um de nós ter miolos o bastante para ter ficado.
-Mas ele deve estar morto uma hora destas !
-Não, essa cena é só para nós, talvez uma alucinação visual. Debaixo de todos os tigres, e leões, e furacões, Driscoll está seguro, e vivo, porque ele é a única audiência para ela, agora. Ora, ela vai mimá-lo até estragá-lo. Vai ter uma vida maravilhosa, enquanto nos arrastamos pelo espaço, para cima e para baixo, procurando, mas sem encontrar um outro planeta como este. Não, nunca voltaremos para “salvar” Driscoll. De qualquer modo, não creio que “ELA” vai deixar. Toda velocidade à frente, Koestler, toda velocidade...
O foguete saltou para frente, em acelerações crescentes. E pouco antes do foguete desaparecer numa névoa luminosa, Forester imaginou ver Driscoll claramente, andando pela verde floresta, assobiando baixinho, todo o planeta, com todo o seu frescor a seu redor, um rio de vinho só para ele, peixe cozido nas fontes quentes, frutas amadurecendo nas árvores, à meia-noite, e lagos e florestas distantes, esperando que ele passasse por lá. Driscoll andando pelos grandes infinitos, perto das seis pedras grandes, além da floresta, até a margem do rio, largo e luminoso...

FIM






 


Sexta-feira, Março 14, 2003


Aqui Haverá Tigres – Parte IV

Após um longo minuto de contemplação da poça de piche, silenciosa, Chatterton virou-se e olhou para as colinas, cegamente, para os verdes prados ondulantes. As árvores distantes estavam dando frutos , agora, deixando-os cair, aos poucos, ao chão.
-Vou mostrar-lhes – falou baixinho.
-Calma, Chatterton.
-Vai ver só.
-Sente-se e beba algo.
-Vai ver que não pode fazer isso comigo.
Chatterton começou a andar para a nave.
-Espere um pouco – chamou Forester.
Chatterton corria. – Sei o que vou fazer, sei como resolver isto !
Parem-no ! – gritou Forester. Correu , e então lembrou-se que podia voar. – A bomba-A está na nave, se ele usá-la...
Os outros homens haviam também pensado nisso, e já estavam no ar. Um pequeno arvoredo estava entre Chatterton e a nave, enquanto este corria pelo chão, esquecido que podia voar, ou com medo de voar, ou talvez sem permissão para voar, gritando. A tripulação ia para o foguete, para esperá-lo, o capitão com eles. Chegaram-se, alinharam-se, e fecharam a porta do foguete. A última vez que viram Chatterton, foi quando ele estava mergulhando no bosque.
A tripulação continuou esperando.
-Aquele idiota, estúpido.
Chatterton não saiu do outro lado das árvores.
-Ele parou, esperando que relaxemos a guarda.
-Vão buscá-lo. – disse Forester.
Dois homens saíram correndo.
Agora, bem de leve, uma chuva suave e densa caía sobre o mundo verde.
-O toque final – observou Driscoll. – Nunca precisaríamos construir casas, aqui. Notem como não está chovendo sobre nós. Chove só à volta, à frente, atrás de nós. Que mundo !
Ficaram lá, secos, no meio da fria e azulada chuva. O sol estava se pondo. A lua, grande, da cor do gelo, subiu acima das refrescadas elevações.
-Só há uma coisa que falta a este mundo.
-Sim, disseram todos, devagar, pensativamente.
-Precisamos verificar isso – disse Driscoll. – É lógico. O vento nos transporta, as árvores e os rios nos alimentam, tudo está vivo. Talvez se pedíssemos companhia...
-Pensei nisso, hoje e em outros dias – falava Koestler. – Somos todos solteirões, e viajamos há anos, e cansados disso. Não seria bom p0ararmos em algum lugar ? Aqui, talvez. N a Terra, você suaria sangue para economizar o suficiente para construir uma casa., pagar os impostos; e as cidades fedem. Aqui, você nem mesmo precisa de casa, com este clima. Se a coisa ficar monótona, pode pedir chuva, nuvens, mudanças. Não é preciso trabalhar aqui, por nada.
-Seria cansativo. Enlouqueceríamos
-Não – retrucou Koestler, sorrindo. – se a vida ficasse muito mole, tudo o que precisaríamos fazer seria repetir algumas vezes, o que Chatterton disse : Aqui haverá tigres. Ouçam !
Ao longe, não havia um fraco rugido de um grande felino, escondido nas florestas no poente ?
Os homens arrepiaram-se.
-Um mundo versátil – disse Koestler, secamente. Uma mulher que faz tudo para satisfazer os homens enquanto formos bonzinhos com ela. Chatterton não se comportou direito.
-Chatterton. E ele ?
Como em resposta a isto, alguém gritou, longe. Eram os dois que haviam ido ver o que era de Chatterton, e estavam acenando na orla do bosque
Forester, Driscoll e Koestler voaram para lá, desacompanhados.
-O que há ?
Os homens apontaram para a floresta . – Pensamos que gostariam de ver isto, Capitão. É muito estranho. – Um dos homens indicou um caminho. Olhe aqui, senhor.
Marcas de grandes garras no chão, recentes e nítidas.
-E também aqui.
Umas gotas de sangue.
Um cheiro pesado, de algum felino, no ar.
-Chatterton ?
-Creio que jamais o acharemos, Capitão.
Fraco, muito fraco, afastando-se, e por fim desaparecendo no silêncio do ocaso, vinha o rugido de um tigre.
Os homens estavam sobre a grama resilente, perto do foguete e a noite era quente. – Lembro-me das noites de minha infância – falou Driscoll. – Meu irmão e eu esperávamos pela noite mais quente de julho, e dormíamos no gramado do Fórum, contando estrelas, e conversando : foi uma grande noite, a melhor da minha vida : - Sem contar esta, claro.
-Continuo pensando em Chatterton – disse Koestler.
Esqueça – respondeu Forester. – Dormiremos algumas horas e decolaremos. Não podemos nos arriscar a ficar aqui mais um dia. Não falo do perigo que pegou Chatterton. Não. Quero dizer, se ficássemos, poderíamos gostar demais deste mundo. Nunca desejaríamos partir.
Uma brisa suave soprou sobre eles.
-Não quero ir, agora. – Driscoll pôs as mãos atrás da cabeça, deitou-se, e ficou calado. – Eo planeta não quer que o deixemos.
-Se voltássemos a Terra, e contarmos a todos como este planeta é adorável, e então , Capitão ? Virão aqui para esmagá-lo, e arruiná-lo.
-Não – falou Forester, despreocupadamente, - primeiro, este planeta não toleraria uma invasão em grande escala. Não sei o que faria, mas poderia pensar em algumas coisas muito interessantes. Segundo, gosto demais deste planeta, e o respeito. Voltaremos a Terra e mentiremos. Diremos que é hostil. Que o seria realmente para um homem mediano, como Chatterton. Seria vir aqui e se dar mal. Acho que nem mesmo estaríamos mentindo.
-Engraçado – comentou Koestler – não estou com medo. Chatterton desaparece, tem uma morte horrível, talvez, e no entanto, estamos aqui deitados, ninguém corre, ninguém tem medo. É irracional. Porém, está certo. Confiamos no planeta, e ele confia em nós.
-Reparou que depois de ter bebido um pouco da água-vinho, não desejou mais ? Um mundo de moderação.
Ficaram ouvindo algo com o grande coração desta terra, batendo quente e devagar, abaixo dos seus corpos.
Forester pensou. – Eu estou com sede.
Uma gota de chuva espalhou-se sobre seus lábios.
Riu-se quietamente.
-Estou solitário- pensou.
Logicamente escutou vozes agudas.
Fechou os olhos e teve uma visão. Havia um grupo de colinas de onde corria um rio de águas claras, e nos pontos rasos daquele rio, espadanando na água, rostos acesos, havia lindas mulheres. Brincavam como crianças, na praia. E veio às mente de Forester conhecimento sobre elas, e suas vidas. Eram nômades, vagando por este mundo a seu bel-prazer. Não havia estradas ou cidades, só colinas e planícies, e ventos para levá-las como penas, para onde quisessem. À medida que Forester mal conformava as perguntas, alguém invisivelmente sussurrava as respostas. Não havia homens. Estas mulheres, sozinhas produziam sua raça. Os homens haviam desaparecido, cinqüenta mil anos antes. E onde estavam estas mulheres, agora ? A uma milha da grande floresta, uma milha acima da grande correnteza de vinho, perto das 6 pedras brancas, e mais uma mil;ha até o rio largo. Lá , nos baixos, estavam as mulheres que dariam boas esposas, e gerariam lindas crianças.
Forester abriu os olhos. Os outros homens estavam de pé.
-Tive um sonho.
Todos tinham sonhado.
-A uma milha da floresta verde...
-uma milha acima do rio de vinho...
-...perto das 6 p0edras brancas...falou Koestler.
-...e mais uma terceira milha até o rio largo – completou Driscoll que estava sentado.
Ninguém falou de novo, por um momento. O9lhavam para nave prateada, imóvel, à luz das estrelas.
-Andamos, ou voamos, Capitão ?
Forester nada disse.
Driscoll pediu : Capitão, vamos ficar . Não vamos mais voltar para a Terra. Eles nunca virão investigar o que aconteceu conosco; pensarão que morremos aqui. O que acha ?
O rosto de Forester estava transpirando. Sua língua umidecia os lábios. Suas mãos torciam-se sobre os joelhos. A tripulação esperava.
-Seria muito bom. – falou por fim.
-Claro.
-Mas...suspirou Forester. – Temos nosso trabalho a afazer. Muita gente investiu em nossa nave. Devemo-los o nosso retorno.
Forester ergueu-se. Os homens ainda estavam sentados na grama, sem ouví-lo.
-É uma noite tão boa, bela, maravilhosa...-disse Koestler.
Olharam para o mar de colinas, as árvores, e os rios, correndo para seus horizontes.
-Vamos, todos a bordo – disse Forester, com dificuldade.
- Capitão...
- A bordo – repetiu ele.

( aguardem a última parte ! )



 


Quinta-feira, Março 13, 2003

Aqui Haverá Tigres – Parte III

A noite viera, como o fechar de um grande e delicado olho. Chatterton
sentava-se, aparvalhado, na encosta de uma colina. Os outros homens estavam à sua volta, cansados e risonhos. Ele não olhava para os outros, nem para o céu, queria apenas sentir a terra, e seus braços e suas pernas, e seu corpo, encolhendo-se parta dentro de si mesmo.
-Ora, não foi perfeito ? -disse um homem chamado Koestler.
Eles tinham voado, como verdilhões, e águias, e pardais, e todos estavam contentes.
-Vamos Chatterton, foi divertido ou não foi ? – disse Koestler.
-É impossível. Chatterton fechou os olhos, bem apertados. – Só há um meio de se fazer isso; está vivo. O ar está vivo. Como um punho, me apanhou. A qualquer minuto, agora, pode matar-nos. Está vivo.
-Está bem – disse Koestler – está vivo. E uma coisa viva tem seus propósitos. Suponho que o objetivo deste mundo seja fazer-nos felizes.
E ,como para confirmar isto, Driscoll veio voando, cantis em cada mão. – Achei um riacho, testei e encontrei água pura; esperem até experimentar.
Forester tomou um cantil e ofereceu um gole a Chatterton. Chatterton abanou a cabeça e afastou o cantil bruscamente. Pôs as mãos no rosto. –É o sangue deste planeta. Sangue vivo. Bebam isso, ponham isso dentro de vocês e porão este mundo dentro de vocês para olhar através de seus olhos e ouvir através de seus ouvidos. Não obrigado !
Forester deu de ombros, e bebeu.
-Vinho ! - disse ele.
-Não pode ser !
-Mas é ! Cheire, saboreie ! Um excelente vinho branco.
-Francês. – Driscoll experimentou o seu.
-Veneno – disse Chatterton.
Passaram os cantis para todos.
Folgaram por toda a tarde suave, sem querer fazer nada, para perturbar a paz que os circundava. Eram como rapazinhos na presença de uma grande beleza, de uma bela e fogosa mulher, receando que alguma palavra, algum gesto, e ela poderia desviar o rosto, e apartar deles seu encanto e suas amáveis atenções. Sentiram o terremoto da saudação a Chatterton, e eles não queriam o terremoto. Vamos aproveitar este Dia Depois do Fim das Aulas, este tempo de Pescar. Vamos sentar-nos sobre a sombra das árvores, ou andar pelas colinas, mas não vamos fazer escavações, nem testes , nem contaminações.
Acharam uma pequena correnteza que desembocava numa piscina quente. Peixes nadando na fria correnteza acima, caíram rebrilhando na fonte quente, e flutuavam, minutos depois, cozidos, para a superfície.
Chatterton, relutantemente, juntou-se aos outros ,comendo.
-Vai nos envenenar a todos. Sempre há algum truque, com coisas assim. Vou dormir no foguete, essa noite. Vocês podem dormir fora, se quiserem. Para citar um mapa que vi, na história medieval : “Aqui haverá tigres”. Em algum momento esta noite, quando vocês estiverem dormindo, os tigres e os canibais aparecerão.
Forester abanou a cabeça. – Vou com você, este planeta está vivo, é uma espécie única. Mas precisa de nós para se exibir, para que apreciamos sua beleza. Para que um cenário cheio de milagres, se não há audiência.
Mas Chatterton estava ocupado. Estava dobrado, enjoado.
-Estou envenenado ! Envenenado !
Seguraram-no pelos ombros, até que a náusea passou. Deram-lhe água. Os outros estavam se sentindo bem.
-É melhor comer somente comida da nave, de agora em diante – advertiu Forester, - será mais seguro.
-Vamos começar a trabalhar agora. Chatterton vacilou, limpando a boca. – Gastamos um dia inteiro. Vou trabalhar sozinho, se necessário. Vou mostrar uma coisa a este lugar infernal !
E foi bambeando até o foguete.
Ela não sabe quando está bem – murmurou Driscoll. – Não podemos impedi-lo, Capitão ?
-Ele é praticamente o dono da expedição. Não precisamos ajudá-lo. Há uma cláusula em nosso contrato que garante a recusa do trabalho sob condições perigosas. Assim...façam a este parque de piquenique o que gostariam que fizessem a vocês. Nada de corte inicial de árvores. Recoloquem a turfa da grama. Não deixem cascas de banana no chão.
Agora, lá na nave, havia ruído de intensa atividade. Da porta do compartimento de carga saía a grande e reluzente broca. Chatertton a seguia, dando ordens pelo rádio robô. – Por aqui !
- O louco.
- Agora ! gritou Chatterton.
A broca mergulhou seu longo parafuso na verde grama. Chatterton acenou para os homens. – Vejam isto !
O céu tremeu.
A broca estava no centro de um pequeno mar de grama. Por um momento mergulhou, trazendo para cima principalmente turfa, que cuspia sem cerimônia num recipiente de análises, que se agitava.
Agora, a broca deu um guincho de metal retorcido, como um monstro que teve a sua refeição interrompida. Do solo, abaixo dela, um l
líquido azulado lentamente borbulhou para cima.
Chatterton gritou. – Para trás idiota !
A broca pisoteava em dança pré-histórica. Gritava como um comboio fazendo uma curva fechada, lançando faíscas vermelhas. Estava afundando. O solo negro cedia, convulsivamente, abaixo dela.
Como um suspiro engasgado, uma série de sopros e convulsões, a broca mergulhou numa espuma preta, como um elefante morto a tiros, e estrebuchando, trombeteando, como um mamute ao fim de uma era, fazendo desaparecer membro por poderoso membro dentro do poço.
-Louco, Louco ! disse Forester, quase se fôlego, fascinado com a cena. – Sabe o que é, Driscoll ? É piche. A máquina cretina achou um poço de piche.
-Ouça ! Ouça ! – gritava Chatterton para a broca, e corria a borda do lago oleoso. – Por aqui, venha cá !
Mas, tal como os velhos tiranos da Terra, os dinossauros com seus longos pescoços gritadores, a Broca estava mergulhando e pisoteando o lago de onde não havia retorno, para aquecer-se nas margens, firmes e sensatas.
Chatterton virou-se para os outros homens, à distância. – Façam alguma coisa, alguém !
A broca desapareceu.
O poço de betume borbulhava, satisfeito, chupando os ossos do monstro agora oculto. A superfície estava silenciosa. Uma grande bolha, a última, ergueu-se, e expeliu o cheiro de petróleo antigo, e desfez-se.
Os homens se aproximaram e ficaram à margem do marzinho negro.
Chatterton parou de gritar.

(continua... )




 




Aqui Haverá Tigres - Parte II

Passou o tempo nos relógios de pulso dourados dos homens lá embaixo. Olharam para cima. E do céu veio um som alto de uma risada quase inacreditável.
-Diga-lhe para descer – cochicou Chatterton. – Ele vai se matar.
Ninguém o ouviu. Seus rostos estavam erguidos, longe de Chatterton; estavam abobalhados e sorrindo.
Por fim, Driscoll aterrisou, de pé.- Viram ? Eu voei !
-Deixe-me sentar, oh deus – Driscoll batia nos joelhos, rindo compulsivamente. – Sou um pardal; sou um falcão. Vamos, vocês todos; tentem !
-Foi o vento , pegou-me , e eu voei ! – disse, num instante depois, meio esgotado, tremendo de alegria.
-Vamos sair daqui. – Chatterton começou a dar as costas, indo devagar em círculos, olhando para o céu azul. – É uma armadilha , querem que voemos todos. Então vão nos deixar cair, todos de uma vez, matando-nos. Vou voltar à nave.
-Vai esperar por minha ordem – disse Forester.
Os homens estavam com as testas franzidas, ao ar fresco, enquanto o vento suspirava à volta deles. Havia o som de uma pipa no ar, um som de Março eterno.
-Eu pedi ao vento que me levasse – disse Driscoll – E ele obedeceu !
Forester fez sinal para os outros se afastarem para os lados. – Vou experimentar. Se eu morrer, voltem para a nave, todos vocês .
-Desculpe, não posso permitir isso, você é o capitão – interveio Chatterton. – Não podemos arriscar a perder você. Sacou sua arma. – Eu devo assumir alguma espécie de autoridade ou força, por aqui. Esta brincadeira está indo longe demais; estou ordenando que voltemos para a nave.
-Guarde a sua arma – disse Forester, calmo.
-Quieto, seu idiota ! Não perceberam ? Este mundo é vivo, e está brincando conosco, à vontade.
-Eu decido sobre isso – interveio Forester. – Você vai voltar à nave, num instante, sob prisão, se não abaixar esta arma.
-Seus loucos, se não vierem comigo, poderão morrer aí ! Vou voltar, pegar minhas amostras e cair fora.
-Chatterton !
-Não tentem impedir-me !
Chatterton começou a correr. Então de repente, deu um grito.
Todos gritaram e olharam para cima.
-Lá vai ele – falou Driscoll.
Chatterton estava em pleno céu.





 


Quarta-feira, Março 12, 2003

A TOCA DO CÃO, orgulhosamente apresenta :
Um conto de Ray Bradbury, ainda relacionado com o tema Gaia.

Aqui Haverá Tigres
(Parte I )

Você tem que vencer um planeta com as mesmas armas dele, -falou Chatterton. – Vá chegando e rasgando, mate suas cobras, envenene seus animais, represe seus rios, desponilize seu ar, minar, perfurar, picaretar e cair fora, quando tiver o que desejava. De outro modo, um planeta vai arrasar com você. Não se pode confiar em planetas. São destinados a serem diferentes, malignos, prontos para pegá-lo, especialmente quando são tão distantes, a um bilhão de milhas de lugar algum, de modo que você precisa pegá-los primeiro. Arranque-lhes a pele, é o que estou dizendo. Retire os minerais e corra antes que o mundo-pesadelo estoure na sua cara. É assim que se trata com eles.
A espaçonave mergulhava na direção do planeta 7 do sistema solar 87. Viajaram milhões de milhas; a Terra estava longe, seu sistema, e seu sol esquecidos, seu sistema reconhecido e investigado e explorado, e assim como os outros sistemas, ordenhados e acabados, e agora os foguetes daqueles homenzinhos, de um planeta impossivelmente remoto estavam explorando universos mais distantes. Em poucos meses, poucos anos, podiam ir para qualquer lugar, pois a velocidade de sua nave era a velocidade de um deus , e agora pela décima milésima vez , um dos foguetes da longa caçada estava descendo rumo a um mundo estranho.
-Não – disse o Capitão Foster. – Tenho demasiado respeito pelos outros mundos para tratá-los do jeito que você diz, Chatterton. Não é meu negócio devastar e arruinar, de qualquer maneira, graças a deus. Estou feliz por ser apenas um astronauta. Você é o antropólogo-mineralogista. Vá em frente com sua mineração e devastação e escavação. Apenas olharei. Apenas ficarei por aí, olhando esse novo mundo, seja lá qual for, ou seja lá qual o seu aspecto. Gosto de olhar. Todos os astronautas gostam de olhar, ou não seriam astronautas. Você gosta de farejar novos ares, se é um astronauta, e ver oceanos e ilhas.
-Leve sua arma – disse Chatterton.
-No coldre – respondeu Forester.
Viraram-se juntos para a escotilha e viram o mundo verde erguendo-se para encontrar sua nave. – Imagino o que ele pensa de nós. – disse Forester
-Não vai gostar de mim. – disse Chatterton. – Vou providenciar para que não goste de mim. E não me importo, sabe; estou aqui pelo dinheiro. Vamos descer ali, por favor, Capitão; pelo que sei, me parece uma região rica.
Era a cor verde mais fresca que haviam visto desde a infância.
Lagos, como claras gotas de água azul, pelas colinas suaves; não haviam estradas amplas, placas ou cidades. É um mar de verdes golfos, pensou Forester, que se estende indefinidamente. Campos de golfe, campinas onde se pode andar dez mil milhas em qualquer direção e nunca encontrar nada. Um planeta de domingo, um mundo de críquete, onde se pode deitar no chão, um trevo nos dentes , olhos semicerrados , sorrindo para o céu, cheirando a grama, modorrar através de um eterno Sabbath, erguendo-se apenas na ocasião de abrir o jornal de domingo, ou fazer bola com a faixa vermelha passar pela barreira.
-Se um planeta jamais foi uma mulher, este o é.
-Mulher por fora, homem por dentro – retrucou Chatterton.
-Rijo por baixo; ferro , cobre , urânio , turfa negra. Não se deixe enganar pelos cosméticos.
Foi para o compartimento onde esperava a broca. Sua grande tromba de parafuso brilhava, azulada, pronta para penetrar a setenta pés e retirar rolhas de terra, ainda mais fundo, com extensões, até o núcleo do planeta. Chatterton piscou para ela. – Vamos fazer um bom trabalho com seu planeta, Forester.
-Sim, eu sei que você vai – falou Forester, pensativo.
O foguete aterrisou.
-É um mundo verde, muito pacífico – disse Chatterton, - não gosto disso. – Voltou-se para o Capitão. – Vamos sair armados.
-Eu dou as ordens, se você não se importa.
-Sim, e minha companhia paga-nos com milhões de dólares de maquinaria, que devemos proteger; um investimento e tanto.
O ar do novo planeta 7 do sistema solar 87 era bom. A porta abriu-se. Os homens alinharam-se, no mundo de estufa.
O último homem a emergir foi Chatterton, arma na mão.
Quando este pousou o pé no gramado verde, a terra tremeu. A grama tremeu. A floresta distante rumorejou. O céu pareceu piscar e escurecer, imperceptivelmente. Os homens estavam olhando para Chatterton, quando tudo aconteceu.
-Um terremoto !
O rosto de Chatterton empalideceu. Todos riram.
-Não gosta de você, Chatterton !
-Mas que bobagem !
O tremor , finalmente , desapareceu.
-Bem – disse o capitão Forester, - não tremeu para nós, de modo que deve ser porque não aprova sua filosofia.
-Coincidência – Chatterton sorria, desenxabido. – Vamos agora, depressa. Quero a broca aqui em meia hora, para algumas amostras.
-Um momento – Forester adiantou-se, rindo. Precisamos liberar a área primeiro, estaremos certos de que não há animais ou pessoas hostis. Além do que, não é todo ano que se acha um planeta como este, tão bonito; não pode reclamar de nós se quisermos dar uma boa olhada ?
- Está bem. – Chatterton juntou-se a eles. – Mas vamos depressa.\
Deixaram uma guarda na nave , e forma-se pelos campos e prados, por pequenas colinas e pequenos vales. Como um bando de garotos passeando, no melhor dia do melhor verão do mais belo ano da história, andando num clima de jogo de críquete, onde, se prestasse atenção, se podia escutar o farfalhar da bola de madeira pela grama, o “clic”pela barreira, as suaves ondulações de vozes, uma súbita rajada de um riso de mulher de alguma porta cercada de hera, o tilintar de gelo numa jarra de chá, no verão.
-Ei – falou Driscoll, um dos tripulantes mais jovens, farejando o ar Trouxe uma bola de beisebol, e um bastão; podemos jogar depois. Que belo campo de beisebol !
Os homens riram baixinho, na estação do campeonato de beisebol, no bom vento fraco para tênis, no clima para andar de bicicleta e ir colher uvas silvestres.
-Que tal aparar toda esta grama ? – perguntou Driscoll.
Os homens pararam.
-Eu sabia que haveria algo de errado ! Exclamou Chatterton. – Esta grama está recém-cortada !
-Provavelmente, uma espécie de dichondra, sempre curta.
Chatterton cuspi na grama, e esfregou-a com a bota. – Não gosto disso. Não gosto. Se algo acontecer conosco ninguém na Terra vai ficar sabendo. Política idiota : se um foguete não retorna nunca, nunca enviamos um segundo foguete para verificar porque.
-Bastante natural – respondeu Forester. – não podemos perder tempo em mil mundos hostis, lutando guerras fúteis. Cada foguete representa anos, dinheiro, vidas. Não podemos nos dar ao luxo de gastar dois foguetes, se um prova que é um planeta hostil. Vamos para planetas sossegados. Assim como este.
-Imagino – dizia Driscoll – o que aconteceu a todas aquelas expedições perdidas em mundos que nunca visitaremos.
Chatterton olhou para a floresta distante. Foram mortos a tiros, despedaçados, assados para o jantar. Tal como poderá ser conosco, a qualquer minuto. É hora de voltar ao trabalho, Capitão !
Estavam no topo de uma elevação.
-Sintam – falou Driscoll, braços e mãos estendidos, frouxamente. – Lembram-se como corriam quando eram crianças , e como se sentia o vento. Como penas em seus. Corria-se, e pensava-se se sentia o vento. Como penas em seus braços. Corria-se, e pensava-se que a qualquer momento, se sairia voando , mas isto nunca acontecia.
Os homens ficaram lá, relembrando. Havia um cheiro de pólen e chuva nova secando sobre um milhão de folhas de grama.
Driscoll deu uma corridinha. – Sintam, por Deus,o vento. Sabe, nunca realmente conseguimos voar. Precisamos sentar dentro de toneladas de metal, longe de voar de verdade. Nunca voamos como pássaros, sozinhos. Não seria maravilhoso estender os braços assim... – Estendeu-os. – E correr. – Correu à frente deles, rindo com suas idiotices. – E voar ! – gritou.
E saiu voando.

(...) Aguardem a próxima parte !


 


Quinta-feira, Março 06, 2003

Irei dedicar este dia de poesias ao tema GAIA. A Terra viva, Universo vivo. Organismo Consciente.

A TOCA DO CÃO ORGULHOSAMENTE APRESENTA :

Um poema de Ernesto Cardenal


No princípio houve uma turbulência.
No princípio foi o Caos, pai de Gaia, deusa da Terra.
Um tempo havia só uma matéria tênue
Estendida uniformemente no espaço.
O Caos Primogênito.
Que produziu a primeira perturbação.
Primeiro condensações de nebulosas tenuíssimas.
As condensações se comprimiram em estrelas.
Chamaram “Nova” e “supernova” às que julgaram mais novas.
Ironicamente, porque são a destruição de uma estrela.
Mas uma supernova criou pelo menos uma estrela nova :
O Sol.

Como a Terra mantém a Lua girando ao seu redor
O Sol mantém a Terra e os demais planetas em círculos
Ao seu redor.
Os planetas nasceram como condensações de gás :
Arrancados do Sol se comprimiram, tornando-se líquidos
E depois sólidos.
O Sol e seus filhos os planetas.
Os planetas e sua prole os satélites.
Girando em torno do Sol.
Suas distâncias desiguais em torno do Sol
Produziram, ao mover-se juntos, uma harmonia ( para os gregos )
Como as distâncias desiguais das cordas de uma lira
Ao mover-se juntas.
Mercúrio primeiro com a sua órbita elíptica e sem atmosfera,
O mais desolado se todos os planetas,
Depois Vênus com sua atmosfera amarelada de ácido sulfúrico,
A Terra com sua Lua
O árido Marte de atmosfera rosada de dióxido de carbono
Com duas luas
Os 60.000 asteróides, escombros de planeta,
O gigante Júpiter de tormentosa atmosfera de várias cores
Com 16 luas,
Saturno imenso mas vaporoso com 3 anéis e 21 luas,
Urano de metano gelado com 15 luas e muitos anéis,
Netuno verde-pálido e de pouco brilho, com 2 luas,
E muito mais além, o último, Plutão o planeta de ano mais longo
(dois séculos e meio dos nossos ) e o mais frio, com uma lua,
as 58 luas girando em torno dos seus eixos
e em redor dos planetas
e os planetas ao redor dos seus eixos e ao redor do Sol
e o Sol girando ao redor do seu eixo
e com todos os planetas e luas girando na galáxia
além das constelações de Hércules e da Lira
e a galáxia girando com outras galáxias
e tudo girando em torno de que ou quem ?

A maior criatura viva da Terra
É a Terra.
Nós a vimos em fotos :
Esfera de safira entre lanugem branca
E reluzentes casquetes brancos mos seus pólos.
A nova noção de Gaia – uma Terra vivente.
O planeta Terra , um só ser vivo, todo ele.
Já o era muito antes que em sua superfície houvesse “vida”.
Não há onde viver a não ser no céu,
Por isso,
saído da região equatorial do sol
se tornou redondo para girar.
Ser vivo que não precisava de pernas, nem boca
Nem ânus
Mas apenas ser redondo e girar e girar ao redor do sol.
Girava rápido ( dias de 5 horas e noites de 5 horas ),
A lua desde então criando as marés.
Criou para si mesmo as condições para ter organismos
E depois organismos com consciência, pessoas, e depois
Um organismo que é , ao mesmo tempo, comunidade e pessoas.
Ardente e árida, fumegante, escorrendo lava, vidro derretido,
Parecia que a Terra não tinha futuro.
Quem diria que daquele magma flamejante
Sairiam bosques e cidades e cantos e saudades.
Porém choveu. A chuva se evaporava, e chovia e chovia.
Uma chuva torrencial caiu por cem mil anos.
Deu a volta ao redor do Sol, mil milhões de vezes sem vida alguma.
A bola não seria então azul e branca
Com terra cor-de-rosa.
O Sol sempre cor de crepúsculo.
O céu cor de folha seca o mar copiando essa cor.
As ondas pardas arrebentando na terra parda e morta.
A erosão eólia das rochas foi para a vida.
Continentes muito diferentes dos atuais flutuavam à deriva.
O Everest foi crescendo duas polegadas por ano.
O céu começou a se fazer azul enchendo-se de oxigênio.
O Céu ficando azul porque o mar foi ficando verde
( com vida ) e depois verde a Terra.
Clorofila e oxigênio,
Tudo verde e azul.
Tínhamos um planeta molhado, e já aquecido para a vida.

Ainda era pouca a diferença entre célula e não célula,
A vida primeiro era só uma mancha purpúria verdosa.
Microcosmo que ainda está vivo em nós.
Certas qualidades anômalas da água
Com excepcionai condições de radiação
E temperatura, e etc.
Até ser o sistema energético que chamamos vida.
Primeiro um lodo espumoso talvez.
Seguramente microscópica.
Mas já com bocas, abertas bocas microscópicas, bocas
Famintas ainda sem canto, e depois já com aletas,
Aletas premonitórias de asas e da mão.
Primeiro a vida era muito aquosa, delicada , leve,
E não deixou fósseis nem mesmo microscópicos.
Apareceram depois fósseis de Limulus copulando, no Câmbrico.
Ainda não havia lagostas, ostras ou peixes.
Chegar a ser Terra, foi como ir a outro planeta.
Os organismos se achatavam pelo seu próprio peso.
Daí os ossos. E pele, couro, carapaças,
Por causa da luz direta do Sol que caía sobre a Terra.
E a seca, era preciso levar água por dentro.
Vertebrados na Terra, seguíamos sendo aquáticos.
Focas delfins e baleias preferiram voltar para a água.
“O ato essencial da procriação é sempre em água.”
E nadando na água do ventre cresce o embrião.
E mesmo os humanos suamos e choramos água do mar.
A Bola aprendeu sozinha a cobrir-se de terra vegetal.
É uma Terra viva, toda ela, palpitante.
A pedra também vibra , embora lentamente.
O Planeta lateja por dentro.
Um corpo vivo que caminha pelo céu entre as estrelas.
Uma atmosfera nos protege das radiações maléficas.
O Sol que nos ilumina nos deixa dormir.
A célula não é só suas células,
Assim esse planeta vivo não é somente os seus seres vivos.
Extensão do nosso corpo
É este corpo esférico flutuando no espaço.
Lagos e vulcões são também nossa carne.
Nossa carne de compostos de carbono
Saído do fundo da terra pelos vulcões.
Com a luz ultravioleta filtrou ozônio do oxigênio,
Ozônio que foi defesa da luz ultravioleta.
No Câmbrico o mar estava povoado de invertebrados.
A Terra era um deserto estéril com erupções vulcânicas.
No Siluriano a terra teve plantas, mas sem folhas,
No carbonífero, foram as primeiras cópulas em terra.
No Eleoceno e no Paleoceno as plantas com flores.
Depois dos répteis as aves
E depois os mamíferos.
Os primeiros mamíferos pequeninos, com sangue quente
Que os fazia suportar o frio da noite. Saíam
À noite, à luz da lua, e a noite lhes dilatou os olhos.
Depois GAIA elevou a temperatura
Os homens saíram das cavernas
A fazer cidades.
Sempre formas superiores depois de outras inferiores
Em organização estrutural.
GAIA :
Terra que é simplesmente a maior criatura vivente da Terra.
Sendo todos os seres vivos somente
Parte da vasta entidade, do organismo total.
Uma atmosfera estranha, de gases incompatíveis.
E que a instável atmosfera se mantenha igual,
Só mesmo um ser vivo é capaz disso : Gaia.
Seus animais mudaram a atmosfera respirando.
Antes era venenosa
Como gás escapado da Union Carbide em Bhopal.
Inventaram como respirar o letal oxigênio.
O vermelho do nosso sangue é devido ao ferro.
E o ferro se oxida rapidamente com o oxigênio.
“Respirar é queimar.”
A vida evoluiu
Não se adaptando ao meio ambiente como pensava Darwin
Mas criando o meio ambiente.
Os seres vivos transformam esta bola quimicamente inerte
No imenso organismo.
Só há dois mil milhões de anos é que houve oxigênio
Quando as primeiras plantas usaram a fotossíntese,
E por centos de milhões de anos mantiveram
O ideal de 21% de oxigênio.
O humilde plâncton submergido no oceano
Influi na densidade de altas nuvens brancas
Que influem na temperatura da terra.
“Que todos os átomos se revolvessem
e saísse o planeta ao acaso com vida e tudo,
a probabilidade é zero.”
Nessa terra anômala, diz Lovelock.
Estranha e bela anomalia.
Céu azul, mar e terra !
E o planeta com uma construção biológica.
A contracorrente de toda a química.
Este oxigênio torna possível que façamos fogo,
Que os pássaros voem e tu penses.
Com 21% de oxigênio acendemos fogo, porém
Com 4% mais se incendiaria todo o Amazonas.
Nem muito quente nem muito fria, nem muito ácida nem muito alcalina.
Suficientemente grande para uma atmosfera rala e com luz
Mas não tão grande para que fosse densa e opaca.
Um pouquinho mais longe do sol haveria frio demais,
Um pouquinho mais perto demasiado calor.
Só um planeta vivo é capaz desse controle.
Agora alterou seu ritmo biológico por nosso ritmo técnico.
Dizem que é mais fácil a vida feita por acaso
Do que um furacão ensamblar um boing 707.
E que a vida seja frágil e delicada, é tão-somente
-diz Lovelock- o conceito vitoriano da mulher.
A morte do indivíduo é certa, por certo !
Mas há uma vida em gaia que vai sobreviver a todos nós.
Assim que só dure enquanto o sol permita.

Terra viva que a si mesma se fez no céu o hábitat da vi8da.
O hábitat celeste da vida.
Todo o ser que na Terra vive, das baleias aos vírus,
Um só ser vivo.
Suas depressões e montanhas
Como curvas de um corpo vivo,
E habitamos um planeta que é todo vivo.
Uma vasta coisa vivente,
Que se foi desenvolvendo como vivente desde o princípio.
Gaia come. Sua comida é a luz do sol.
“Anomalia estranha e bela do sistema solar.”
E somos, como espécie, seu sistema nervoso.
Há cinco mil milhões de anos
De poeira e gás se formou
E ficou como está.
Rocha e metais com uma fina película de água e ar.
O gás dos peidos e das borbulhas fétidas dos pântanos
É regulador de nosso oxigênio.
Uma garantia para que os bosques não se incendeiem.
Sem pântanos fedorentos não haveria flores nem tu.
A água, dizem :
Uma das substâncias mais estranhas para a ciência.
Tão inusual e tão abundante.
Por esses dois atributos o planeta é habitável.
Os próprios organismos inventaram o sangue,
Um pedacinho do oceano dentro deles.
O marinheiro lançado à água de noite pelos contras
- sabendo que estava a 38 braças de fundura-
ficou escondido na escuridão com sua tábua. Agora
ele mergulha em suas lembranças :
“Às três me orientei pelo farol que chamam de Haragán.
Ao sair o sol, flutuava perdido depois de nadar e nadar.
Vi ondas no mar de altura de um coqueiro.
Falei com o mar : Por que me maltratas ? Me deixe dormir,
É só isso que eu quero. No mesmo instante o mar se acalmou.
Quando se vive no mar, trata o oceano por tu.
Dormi como meia hora. As ondas então voltaram
Como para me despertar, para me dar o aviso do mar,
Para me dizer : ali estão os barcos. “

Agora Solentiname, a horas de Bangkok.
Até sermos partículas conscientes de um único organismo.
Corpos do grande corpo.
Um planeta faz sinais a outro planeta.
Não há onde viver a não ser no céu.
A visão da bola iluminada no espaço negro
Inspirou até os prosaicos astronautas
“Rutilante jóia branca e azul...
no imenso mar de misteriosa negrura”.
Heiler citava o chefe africano que disse ao branco :
“como se tivéssemos tido a mesma mãe”.
E Lovelock, o inventor da teoria de Gaia, se pergunta
Se outro nome de Gaia não poderia ser Maria.

Qual canção nesse dia cantará a Terra ?

Deitado na minha cama em Manágua
Já ia dormir
E de repente me pergunto
“para onde vamos “? Estamos
na metade escura da terra,
a outra metade, iluminada.
Amanhã estaremos na luz,
E outros no escuro.
Essa noite, deitado na cama,
Sinto a viagem. Mas para onde vamos ?
Recordo números aprendidos noutro tempo :
Ao redor do sol a 30 quilômetros por segundo
- e a galáxia vai a que velocidade ?
Fica tranqüilo, Felipe Peña caído não sabemos onde
E Donald e Elvis enterrados lá na fronteira com Costa Rica,
Fiquem tranqüilos, rapazes, que vamos bem.
Girando no espaço negro
Para onde quer que formos, vamos bem.
E também,
Vai bem a revolução.

ERNESTO CARDENAL
CÂNTICO CÓSMICO – CANTIGA 11 – GAIA
.



 


Quinta-feira, Fevereiro 27, 2003

Bem...hoje acordei meio que reflexivo.
Acabei escrevendo algumas palavrinhas sobre meus amigos, sobre meu amor, e sobre minha família.
Desculpe-me por abusar de sua paciência, leitor.
Mas foi um surto de sinceridade ( e felicidade ).
Não acontece todo dia, então, tive que aproveitar !

Wilton D.C

.ODE AOS AMIGOS


Encontramos várias pessoas nesta jornada
Tão breve na vida
Que sentimos ser especiais
E sentimos ser merecedoras
De nós.

Arrogância ? Despeito ?
Não ! Todo homem sabe o seu valor
E quem merece receber
O status de irmão
E companheiro.

Alguns são loucos
Alguns são sérios
Alguns são hilários
Alguns são reservados
Muitos são tímidos.

Os tímidos buscam amigos
Por um motivo único.
Precisam se sentir fortes.
Os tímidos e reservados
Geralmente são nossos amigos.

Os loucos, e hilários
Também podem ser nossos amigos
Desde que toda esta loucura seja
Produto voltado ao externo
E não ao interior
Um pacote louco
Pode conter um conteúdo
Sério

Sério. Estes são bons amigos.
Fala Sério ! Diria o Casseta !
Falo sério, meu irmão !
Pois ser irmão que não de sangue
Mas com o sangue do espírito
É muito mais sério do que
Possamos crer.

E é muito mais hilário,
e louco também.
Se não fosse tímido não teria tantos
Amigos. Apenas comparsas de baladas.
E na balada, todo ser é seu irmão,
toda mulher é linda,
todo time é vencedor.

Mas quando você apagar o interruptor
Do seu quarto, quando você apagar o abajur
Lembrar-se-á, daquele menino que conversava
Com você no colegial, ou em sua rua.
Ou em sua casa.

Amigos. Todos precisam.
Poucos tímidos
Os têm.
Mas tímidos,
Nunca falarão no assunto.




Dedico este texto aos meus amigos. Aqueles que encontrei pela vida, e são como irmãos para mim.



ODE AO AMOR


Completa comunhão
Vibrações paralelas
Cumplicidade
Uma amostra do impossível,
Ou mesmo do improvável.

Nos almanaques
nunca definiram o verdadeiro amor.
Poucas pessoas estão preparadas
Para sentí-lo.

O verdadeiro amor, não busca,
Nem é encontrado.
O verdadeiro amor, é tocado
No tangir das cordas do universo
E seu vibrar produz belo, e aprazível som.

Racionalidade não há.
Retórica e preparações
Não funcionam. Apenas, um leve dedilhar.

As supremas cordas do universo sentirão o seu tocar
E produzirão belo som.
Mas faltará harmonia.

Mas rapidamente ouvirá outro som,
E como um calafrio ao sentir o arco
Arrastando-se nas cordas,
Notará não ser seu, este som.
Mas existente, mesmo assim.

Como ?perguntaria.
De som tão frio e amador que me produzo,
Perdeste o seu tempo produzindo algo de tão
Suave beleza ?

Porém a responsável pelo outro som,
Com as mesmas colocações estará imersa em pensamentos.
Porque quando amamos somos tímidos.
Todo nosso ego vem abaixo, por não nos sentirmos
Merecedores, de tão linda graça.

E assim, a música cósmica continuará.




Dedico ao meu amor. P.


ODE A FAMÍLIA

Harmonia. Melodia, Tempo, Pulso.
São itens da estrutura musical.
Mas o que não é a família,
Senão uma grande orquestra, regida
Pelos próprios solistas, e
Aconselhada pelo diretor artístico.

Algumas famílias têm maestros.
A minha tem um diretor artístico.
Nunca regeu com sua batuta
Energicamente.
Nunca despediu um músico da equipe

Por desafinar o desafinado.
Mas sim, tirou o mais belo, de todos os da equipe,
Os da família, e afinando-os.
Gerou sons de madeira, de carvalho.
Não de ébano, mas de carvalho.
Adornado, com folhas de oliveira.
Família, amigos, amor.
3 sons. O mínimo para uma harmonia.
Trindade.
Música celestial.
Sinfonia Cósmica.


Pois o amor, se torna amigo, e também família.





Dedico a minha família.










 


Quarta-feira, Fevereiro 26, 2003

Depois de ler vários livros da biba tântrica OSCAR WILDE, resolvi tomar coragem e ler o De Profundis. O livro é barra. É pior do que o CARTAS A THEO do Van Gogh.
O Oscar Wilde, teve um relacionamento devasso e ao mesmo tempo romântico com um aristocrata da Inglaterra que no final o processou, e o Coitado do Oscar foi condenado por homessexualismo, a cumprir 2 anos de prisão.
Na prisão ele se destruiu como artista. Ou melhor, muito antes da prisão, pois enquanto teve o caso com seu namorado, parou de produzir. Cessou sua genialidade.

Vou transcrever um pedaço de uma das cartas que achei interessante, pois trata da realidade de qualquer artista. Bicha, Homem, Mulher, Lésbica...Não importa...interfere no artista.

"(...) Lembre-se que há uma grande diferença entre aquele a quem os deuses julgam tolo, e aquele que parece tolo aos olhos dos homens. É impossível ignorar inteiramente todas as formas que a arte pode assumir em suas diversas manifestações ou os processos de evolução do pensamento, o esplendor de um verso latino, a musicalidade tão cheia de vogais do idioma grego, da escultura toscana ou da canção elizabetana e ainda assim estar cheio da mais doce sabedoria. O verdadeiro tolo, de quem os deuses zombam e a quem tentam destruir, é aquele que não conhece a si próprio. Durante muito tempo eu fui um deles. Você também : Deixe de sê-lo. Não tenha medo. O supremo pecado é a superficialidade. Tudo o que é realizado é certo. (...)
[você] Nunca foi capaz de entender que um artista, e especialmente um artista como eu, para quem a qualidade das obras que cria depende de uma intensificação da personalidade, necessita , para que sua arte possa desenvolver-se, de um ambiente onde haja perfeita comunhão de idéias, de uma atmosfera intelectual, de silêncio, paz e solidão. (...) Mas, [você] era incapaz de perceber as condições necessárias à criação de uma obra artística.

Engraçado. Esta carta foi endereçada a Sir Alfred Douglas, amante de Oscar Wilde. Escreveu as cartas na prisão, na fase mais ruim da sua vida.

Mas bate com o prefácio do Retrato de Dorian Gray. Livro escrito na melhor fase de Oscar Wilde, no auge de sua fama. Ou melhor, o livro que levou o escritor e dramaturgo ao nível que a história o colocou.

Vejamos o que o mestre diz no Retrato de Dorian Gray :

"O artista é o criador de coisas belas.
Revelar a arte e ocultar o artista é a finalidade da arte.
(...) Os que encontram significações em coisas belas são cultos. Para estes há esperança.
Existem os eleitos, para os quais as coisas belas significam unicamente beleza.
Um livro não é de modo algum moral ou imoral. Os livros são bem ou mal escritos. Eis tudo.
(...)Nenhum artista tem simpatias éticas . A simpatia ética num artista constitui um maneirismo de estilo imperdoável.
O artista jamais é mórbido. O artista tudo pode exprimir.
Pensamento e linguagem são para o artista instrumentos de uma arte.
Vício e virtude são para o artista materiais para uma arte.
Do ponto de vista da forma, o modelo das artes é a do músico. Do ponto de vista do sentimento, é a profissão do ator.
Toda arte é ao mesmo tempo superfície e símbolo. Os que buscam sob a superfície fazem-no por seu próprio risco.
Os que procuram decifrar o símbolo correm também seu próprio risco.
Na realidade, a arte reflete o espectador e não a vida.
A divergência de opiniões sobre uma obra de arte indica que a obra é nova, complexa e vital.
Quando os críticos divergem, o artista está de acordo consigo mesmo.
Podemos perdoar a um homem por haver feito uma coisa útil, contanto que não a admire. A única desculpa de haver feito uma coisa inútil é admirá-la intensamente.
Toda arte é completamente inútil. "

Bem, parece que temos uma contradição.
O artista jamais é mórbido. E o artista tudo pode exprimir.

No cárcere, Oscar Wilde tornou-se mórbido, deixando de ser artista, APARENTEMENTE,então.
Tornou-se um semi-homem, chorando dia e noite.
Mas, O ARTISTA TUDO PODE EXPRIMIR. E no fundo de sua alma continuava a ser artista, brincando com o sentimento do mórbido.
E escreveu o de profundis, e A BALADA DO CÁRCERE DE READING.
Não há contradições então.

Outro parênteses. No retrato o autor disse : Os que encontram significações em coisas belas são cultos. Para estes há esperança.
Por consequência a esta tese, no De Profundis, o autor critica o seu companheiro da seguinte maneira :
"Culpo a mim mesmo por ter permitido que uma amizade que nada tinha de intelectual, uma amizade que jamais foi a a criação ou a contemp0lação do belo, dominasse inteiramente a minha vida. (...) Ah, mas se a sua vida não tinha qualquer motivação ! Uma motivação é um objetivo intelectual e você tinha apenas apetites. (...)

E combinando novamente as duas fontes. No retrato Oscar diz : "Revelar a arte e ocultar o artista é a finalidade da arte."
Mas no De Profundis, chama a atenção do seu companheiro traidor, por ele o ter prejudicado neste ponto que parecia ser tão claro para ele mesmo, mas deixou-se enganar pelo amor.
De profundis : " Todas estas coisas, combinadas ao fato de que o seu interesse concentrava-se não na arte mas na vida, e na fama (...) eram prejudiciais...ao meu trabalho como artista. "

Complexa a mente de um artista, não ?
Intrigante ?
Não...para mim é normal...eu sou assim também, embora eu não seja uma biba tântrica...hehehe...espero que a minha namorada, e meu amor, confirme isso ! hahaha

Mas a grande vantagem da história escrita é que o conhecimento sempre avança.
Uma vez numa aula de astronomia na Faculdade, o meu professor disse, que certa vez leu uma crítica do Millor Fernandes que dizia, que ele era muito melhor do que o Freud. ÓHHHHHH !!!!!!!! mas veja porque... Porque ele tinha lido tudo o que o Freud escreveu, mas o Freud nunca ouviu falar do Millor Fernandes.
HAHAHA
Parece arrogância, mas é isso mesmo. Por isso o homem em alguns milhares de anos de história escrita e de matemática chegou tão longe.
Como eu li o que o Oscar Wilde escreveu, tenho obrigação de não cair no mesmo erro.
Porém ele nunca irá saber que eu pulei esta etapa errada da vida, graças a ele.

Legal, não ?

um abraço

Wilton D.C.

OBS : Deixarei um trecho de uma das poesias ( todas muito tristes ) do outro livro que Oscar Wilde escreveu na prisão.
Este em poesia.
A BALADA DO CÁRCERE DE READING

(...) Mas rosa, rubra ou láctea, florescer não logra
aqui no ar da prisão;
Aqui neste lugar , o caco, o seixo, e a pedra
São tudo o que nos dão,
Porque sabem que as flores podem nos curar
a desesperação. "






 


Quinta-feira, Fevereiro 20, 2003

desabafo moral

SE DEPOIS QUE EU MORRER QUISEREM ESCREVER UMA BIOGRAFIA MINHA, QUE PONHAM DUAS DATAS : A DO MEU NASCIMENTO E A DE MINHA MORTE.
ENTRE AS DUAS, TODOS OS DIAS ME PERTENCEM !


 


Quarta-feira, Fevereiro 19, 2003

primavera de 1624. O marechal-de-campo alista, em Dalarme, recrutas para a campanha da Polônia. A vivandeira Anna Fierling, conhecida por Ti Coragem, perde um filho.
BRECHT

TI CORAGEM : Negociantes. ( Canta )

Ó capitães, calai os tambores
que a soldadesca tem de parar :
A TI coragem traz o calçado
que dá mais jeito prá caminhar.

Com piolheira, com bicharia,
Baragens, canhões, a carregar -
Querem que eles marchem para a batalha ?
Pois que se calcema bom calçar.

(...)
SARGENTO : Eu precisava de outra coisa. Vejo que estes rapazes são direitos como o cedro e têm boa peitaça e pernas bem robustas (...)
TI CORAGEM : Nada a fazer sargento. Os meus filhos não foram feitos para os trabalhos da guerra.
(...)
SARGENTO : (...)Queres engordar tuas crias com a guerra, e não dar nada em troca ? Não queres saber de desgraças, pois não ?

BERTOLT BRECHT - Ti Coragem e seus filhos


Uma dica para o Bush, só !
quem tem ouvidos, ouça !

Wilton D.C.


 


Terça-feira, Fevereiro 18, 2003

"A Natureza e suas leis escondiam-se na escuridão : E Deus disse : "Faça-se Newton " , e tudo se iluminou".
Alexander Pope

Engraçado como podemos fazer alguém, ou algo, tornar-se um deus, e logo após virar um inseto.

"Algo que tinha sido uma célula única, um saquinho de tecidos, uma espécie de verme, um peixe em potência, com guelrras, agitava-se-lhe no ventre e um dia viria a ser um homem - homem adulto, que sofre e goza, que ama e odeia, que pensa, que recorda, que imagina. E o que tinha sido uma ampola gelatinosa dentro do seu corpo, inventaria mais tarde um deus e o adoraria;
o que tinha sido uma espécie de peixe, haveria de criar e, tendo criado, se transformaria num campo de batalha entre o bem e o mal; o que tinha vivido nas trevas dentro dela, como um verme parasita, haveria de olhar para as estrelas, escutar música, e ler poesia. Uma coisa se transformaria numa pessoa, uma minúscula de matéria se converteria num corpo humano, num humano espírito. "
Aldous Huxley - Contraponto.

E ainda assim, o Cidade Alerta está seguro de si, por segurar tanta audiência.

Tanta responsabilidade temos, como espécie, de seguirmos adiante, e mesmo assim paramos para ver um corpo espatifado num acidente.
Nunca entendi esta curiosidade do homem pelo bizarro.
Desde a época que se faziam filas e maultidões para ver pescoços sendo pendurados em cordas, e corpos se queimarem em fogueiras, até agora que 90% dos telejornais das emissoras abertas, baseiam-se num modelo estético de mortes, coisas bizarras e tragédias.
E ainda assim estas mesmas pessoas defenderiam com suas vidas o conceito deus.

A culpa não é delas, mas são uma vergonha para a espécie humana.

"Se quisermos entender a psique, temos que incluir o mundo todo". Jung

Eu sei, eu sei, Jung, mas é foda de ter paciência.

Esses dias, num destes programas de escandalozinhos, ocorreu uma discussão entre o compositor da éguinha pocotó, e um maestro...infelizmente eu não vi o programa inteiro, e não sei o nome do maestro.

E...no meio da argumentação do maestro para com o "compositor"da pocotó, ele disse, que fazia música, não uma programação de bateria eletrônica, e dancinhas bestas, para acompanhar...e o compositor da pocotó, respondeu para ele calar a boca, que se ele tivesse tido algum sucesso na vida profissional, não teria sido um maestro.

Dá prá acreditar ?

Àquela música que durante um período da humanidade, esteve junto do status de deus, da perfeição, do limite da sensiibilidade e perfeição plástica, harmônica e rítimica...o indivíduo que dedicava a sua vida para entender todas estas linguagens, entender a mecânica de todos os instrumentos clássicos, todas as formas de escrita e músicas étnicas variadas...hoje é reduzido a um "vc é só um maestro ! "

Estas pessoas envergonham a espécie humana.

Wilton D.C.




 


Segunda-feira, Fevereiro 17, 2003

Eu tive um sonho que não era em tudo um sonho
O sol esplêndido extinguira-se, e as estrelas
Vaguejavam escuras pelo espaço eterno,
Sem raios nem roteiro, e a engendrada terra
Girava cega e negrejante no ar sem lua;
Veio e foi-se a manhã – veio e não trouxe o dia;
E os homens esqueceram as paixões, no horror
Dessa desolação; e os corações esfriaram
Numa prece egoísta que implorava luz:
E eles viviam ao redor do fogo; e os tronos,
Os palácios dos reis coroados; as cabanas,
As moradas, enfim, do gênero que fosse,
Em chamas davam luz; as cidades consumiam-se
E os homens se juntavam juntos às casas ígneas
Para ainda uma vez olhar no rosto um do outro;
Felizes quando residiam bem à vista
Dos vulcões e de sua tocha montanhosa;
Expectativa apavorada era a do mundo;
Queimavam-se as florestas – mas de hora em hora
Tombavam, desfaziam-se – e , estralando, os troncos
Findavam num estrondo – e tudo era negror
À luz desesperante a fronte dos humanos
Tinha um aspecto tão terreno, se espasmódicos
Nele batiam os clarões, alguns, por terra,
Escondiam chorando os olhos, apoiavam
Outros o queixo às mãos fechadas, e sorriam;
Muitos corriam para cá e para lá,
Alimentando a pira, e a vista levantavam
Com doida inquietação para o trevoso céu
A mortalha de um mundo extinto; e então de novo
Com maldições olhavam a poeira, e uivavam,
Rangendo os dentes; e aves bravas davam gritos
E cheias de terror voejavam junto ao solo,
Batendo asas inúteis, as mais rudes feras
Chegavam mansas e a tremer, rojavam víboras,
E entrelaçavam-se por entre a multidão.
Silvando, mas sem presas – e eram devoradas.
E fartava-se a guerra que cessara um tempo,
E qualquer refeição comprava-se com sangue;
E cada um sentava-se isolado e torvo,
Empanturrando-se no escuro; o amor findara;
A terra era uma idéia só – e era de morte
Imediata e inglória, e se cessava o mal
Da fome em todas as entranhas; e morriam
Os homens, insepultos sua carne e ossos;
Os magros pelos magros eram devorados,
Os cães salteavam os seus donos, exceto um,
Que se mantinha fiel a um corpo, e conservava
Em guarda as bestas e as aves e os famintos homens,
Até a fome os levar, ou os que caiam mortos
Atraírem seus dentes; ele não comia,
Mas com um gemido comovente e longo, e um grito
Rápido e desolado, e relambendo a mão
Que já não o agradava em paga – ele morreu.
Finou-se a multidão de fome, aos poucos, dois,
Porém de uma cidade enorme resistiram,
Dois inimigos, que vieram encontrar-se
Junto às brasas agonizantes de um altar
Onde se haviam empilhado coisas santas
Para um uso profano; eles as revolveram
E trêmulos rasparam, com as mãos esqueléticas,
As débeis cinzas, e com um débil assoprar
Para viver um nada, ergueram uma chama
Que não passava de um arremedo; então alcançaram
Os olhos quando ela se fez mais viva, e espiaram
O rosto um do outro – ao ver, gritaram e morreram
- Morreram de sua própria e mútua hediondez,
Sem um reconhecer o outro em cuja fronte
Grafara o nome “diabo” . O mundo se esvaziara,
O populoso e forte era um informe massa,
Sem estações nem árvores, erva, homem vida,
Massa informe de morte – um caos de argila dura.
Pararam lagos, rios oceanos : nada.
Mexia em suas profundezas silenciosas;
Sem marujos, no mar as naus apodreciam,
Caindo os mastros aos pedaços; e ao caírem,
Dormiam nos abismos sem fazer mareta,
Morta as ondas, e as marés na sepultura,
Que já findara sua lua senhoril.
Os ventos feneceram no ar inerte, e as nuvens
Tiveram fim, a escuridão não precisava
De seu auxílio – as trevas eram o universo. BYRON



 



Quem sou eu, ou quem somos nós ? "

" Caminhamos através de nós mesmos, encontrando ladrões fantasmas, gigantes velhos, jovens viúvas, irmãos no amor. Mas sempre encontramos a nós mesmos".
James Joyce - Ulisses

"E perguntou-lhe : Qual é o teu nome ? E lhe respondeu, dizendo : Legião é o meu nome, porque somos muitos". Marcos , 5 : 9 - Bíblia Cristã

É meio desconfortável admitir-mos isso, mas acho que não temos escapatória. Todos nós temos personas incrivelmente belos, completamente insanos, e cruéis dentro de nós mesmos.
Iremos aceitá-los ? Ou melhor, iremos aceitar-nos, ou criaremos uma desculpa mística para nomear o que tem apenas um nome ? Eu ! Você !

Todas as religiões que tive contato, e escolas de pensamento místico, trabalham com estes pontos. Dominação, possessão, abdução, ausência do real, sublimação.
É necessário isto ? Não seria mais fácil aceitarmos que o lado ruim, que vemos, quando estimulados psicológicamente somos nós mesmos. E o lado bom ? Que a força extrema, ou a medionidade são forças naturais de nossos personas ?

Eu prefiro assim. Desta maneira não fico enjoado de mim mesmo ! Eu sou muitos !
Ou melhor : "Somos muitos ! "

Wilton D.C.


 


Sábado, Fevereiro 15, 2003

Nota : A poesia da gata de Schrödinger dedico a minha namorada, o amor de minha vida, a mulher ideal , utópica, e real ! Priscila !
E pros executivos, capitalistas, e globais mando um recado :
"E prá quem disser que eu não trabalho, é só olhar as minhas mãos cheias de calo. Do violão e do baralho ! "

Viva a loucura !!!!!!!!!

Wilton D.C.




 



"O marciano encontrou-se na rua
e teve medo de minha impossibilidade humana.
Como pode existir, pensou consigo, um ser
que no existir põe tamanha anulação de existência ?

Afastou-se o marciano, e persegui-o.
Precisava dele como um testemunho.
Mas, recusando o colóquio, desintegrou-se
no ar constelado de problemas.

E fiquei só em mim, de mim ausente. "

Carlos Drumond de Andrada
Science Fiction

Uma breve reflexão :

A concentração através da disciplina da imaginação
mítica funciona então como um filtro para as
flutuações na imagem observada.
Estas flutuações na imagem, acarretam em uma dificuldade de interpretação do que é visto, tornando-se
uma das principais responsáveis pelo estímulo.
Da imaginação.
Criadora, como fator de compensação da impossibilidade de ver a imagem real,
sem sombras, manchas , ou imprecisões.
Se esta imaginação não for disciplinada, naturalmente
surgem mitos alegóricos e auto-consistentes para a compensação da imagem fragmentada.
A única possibilidade então de Ver, é através da disciplina , ao ponto de agarrar Proteu e ver a sus verdadeira forma.
Nesse ponto a mitologia consiente torna-se útil e sensata, e serve-nos como fonte inspiradora de espiritualidade e sabedoria.

Wilton D.C.

"Se morro
o universo se apaga como se apagam
as coisas deste quarto
se apago a lâmpada :
os sapatos-da-ásia, as camisas
e guerras na cadeira, o paletó-
dos andes,
bilhões e bilhões de seres e de sóis
morrem comigo -
Ou não :
O sol voltará a marcar
este mesmo ponto do assoalho
onde esteve o meu pé;
deste quarto
ouvirás o barulho dos ônibus na rua;
uma nova cidade surgirá de dentro desta
como a árvore da árvore.
Só que ninguém poderá ler
no esgarçar destas nuvens
a mesma história que eu leio,
comovido"

Ferreira Gullar

Este poema é lindo. Lembrei-me dele por causa do balcão de bar de fórmica vermelha de ontem.
A nossa vida é realmente uma merreca. Stenta anos, em um universo ( na minha opinião ) vivo, como Gaia, com 13 bilhões de anos. Somos a célula da célula, da célula, da célula deste corpo de 13 bilhões de anos luz. ( Embora muitos homens se dcomportem como vírus ), eu sou uma célula.
Mas, a beleza está aí, que mesmo com esta merreca de tempo, mesmo pelo olhar de um deus, sermos chamados de bostinhas, estamos aqui, e com estes 70 anos de vida, com a escrita e o conhecimento acumulado de pouco mais de 2000 anos ( e ainda tendo que subtrair a idade das trevas ), conseguimos explicar o universo. Não tudo, mas uma boa parte.
Os deuses gregos não conseguiam, e por isso se auto-mitologizavam ( inventei esta palavra ).
Nós, os bostas de 70 anos, com corpo de carbono, conseguimos.
E voltando a poesia do Gullar,
"Só que ninguém poderá ler,
no esgarçar destas nuvens
a mesma história que eu leio,
comovido."

É isso aí. A nossa vida é um prêmio.
Toda estatística cosmológica diz que é quase impossível existir vida inteligente no universo. São muitas variáveis associadas, muitos requisitos, que não a tornam impossível, mas improvável.
E nós, nós homens, não só existimos, como explicamos, e podemos nos dar ao luxo, de matar deus !

Eu adoro esta vida !!!!!!!!!!

Wilton Domingos de Carvalho


 


Sexta-feira, Fevereiro 14, 2003

A grande vantagem da matemática como linguagem ( ou como gramática, melhor dizendo ) é a sua estruturação baseada em símbolos ( incluindo os números ).
Um símbolo contém absurdamente mais possíveis informações do que a linguagem escrita com o uso do alfabeto, assim, como uma pessoa contém, compactada, por vezes, mais informações do que todo um livro em prosa; além do fato da linguagem poética possibilitar uma expressão visual, plástica e sentimental, a níveis inviáveis na prosa. Assim também o é se compararmos o que nos possibilita a linguagem matemática em relação a linguagem alfabética.

Porém, no caso da música, a linguagem escrita, é inviável para exprimir a totalidade de seu conteúdo.
Priva o músico da comparação, separa o compositor do improvisador, e atrofia os sentimentos do intérprete.

Entendo música, o som aliado ao tempo. A palavra não entra neste status.
A voz humana, apenas como instrumento estará isolada e ainda assim dentro do que é música. Sem a palavra.


Assim, a palavra prende Apolo, prende Proteu, prende a lira histórica e intuitiva humana. A palavra, a língua, e toda gramática e estrutura linguística, são um registro histórico. Não a histório, ou o próprio fato.

Pena que as Universidades ainda não adotaram esta postura.

Lembro-me muito bem do que certa vez li numa introdução de um livro do Thomas Mann que ele nunca conseguiu sentar num banco acadêmico por tempo prolongado. Uma inquietação, e um excesso de criatividade impediam-no. Porém, com uma fúria titânica pessoal, passou a vida a estudar sozinho. Aprendeu a ser, lendo, e pensando. E ele é ( ou era ) o Thomas Mann.
Que as universidades e a academia vá para o não existir !...para não mandá-la fazer companhia ao Cérbero. Tadinho do pobre cão.

Wilton D.C. 14/02/03 d.C. 18h11




 



Um ano e meio atrás, mais ou menos, eu li um trecho de um artigo de Keleman, que me deixou atento, a um fator importante, vital na verdade, que chamo de mitologia pessoal, que geralmente passa despercebido, pelas pessoas, por aí. Acredito que se déssemos maior valor a isso, não haveriam tantas religiões, formas políticas e econômicas, pelo mundo afora.
"A experiência está ligada ao mito. Mergulhar na auto-experiência é viver o mito próprio, e a própria biografia (...) À medida que se aprofunda nossa ligação com a vida, aprendemos que a experiência não pode ser programada. Somos nossos próprios fazedores de mitos, sabendo ou não disso. "

E para complementar esta idéia de Keleman, vejam o que Joseph Campbell disse certa vez :

"(...) Eu comprei uma dessas máquinas maravilhosas - um computador. É um milagre o que acontece na tela. Você já examinou por dentro uma destas coisas ? Não dá prá acreditar. É toda uma hierarquia de anjos..todos sobre placas. E aqueles pequenos tubos - aquilo são milagres. Meu computador me proporcionou uma revelação sobre mitologia. Você compra um determinado programa e ali está todo um conjunto de sinais que conduzem à realização do seu objetivo. Se você começa tateando com sinais que pertençam a outro sistema de programas, a coisa simplismente não funciona (...) É preciso entender que cada religião é uma espécie de programa com seu conjunto próprio de sinais, que funcionam".

Campbell falou isso a quase 20 anos atrás, quando toda pessoa sensível, ficaria boquiaberta com a mágica e espiritualidade que uma máquina destas proporciona. Ele ainda não conhecia o sistema de rede, a net, blogs, grupos virtuais de troca de informações, mas apenas a máquina, o poder contido no signo, em cada gramática virtual, na hierarquia do hardware. Oh que maravilha ! E hoje apenas ligamos e desligamos.
Bem, como toda cultura, o computador não é mais deus. Bem...até o Hall aparecer ! hehehe


 



Nós somos os homens ocos
os homens empalhados
uns nos outros amparados.
O elmo cheio de nada. Ai de nós !
Nossas vozes dessecadas
quando juntos sussurramos,
são quietas e inexpressas
como o vento na relva seca
ou pés de ratos sobre cacos
em nossa adega evaporada.

Fôrma sem forma, somba sem cor
Força paralizada, gesto sem vigor;

Aqueles que atravessam
de olhos retos, para o outro reino da morte
nos recordam - se o fazem - Não como violentas
almas danadas, mas apenas
como os homens ocos
os homens empalhados.
(...)
Entre a idéia
e a realidade
Entre o movimento
e a ação
Tomba a sombra.
Porque teu é o Reino.

Entre a concepção
e a criação
Entre a emoção
e a reação
Tomba a sombra
A vida é muito longa.

Entre o desejo
e o espanto
Entre a Potência
e a existência
Entre a essência
e a descendência
Tomba a Sombra.
Porque teu é o reino.

Porque teu é
A vida é
Porque teu é o

Assim expira o mundo
Assim expira o mundo
Assim expira o mundo
Não como uma explosão, mas como um suspiro.

T.S. Eliot
"Fragmento de OS HOMENS OCOS "






 



Quando tentamos compreender um sonho, estamos fazendo idéias sobre imagens. E quando sonhamos, vemos as imagens carregadas de nossas idéias.
Toda vez que adotamos uma nova idéia, ou um novo sistema de idéias, um paradigma, começamos a ver as coisas de novas maneiras, como se as idéias fossem os olhos.

Eu penso com bastante freqüência sobre este ponto. É muito doloroso criar qualquer paradigma.


 


 

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destina-se as informações cotidianas que só cérbero- como guardião do hades- pode saber. Coisa que até zeus duvida !




 


Design por: Rodrigo Leme